domingo, dezembro 21, 2014

Domini Tinto 2012, Domini Plus Tinto 2011, Hexagon Branco 2013, FSF 2011 e Lancers Espumante Bruto

O tempo passa… vi num documentário que há um mecanismo no nosso cérebro, deve ser algo como a espiral da corda dos relógios mecânicos, que faz com que a percepção do tempo varie com a idade.
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Será por causa desse mecanismo que o período de aulas é demorado para as crianças e vertiginoso para os adultos. Quando conheci o anãozinho cá de casa tinha ele quase quatro anos e era um bocadinho trapalhão a andar… andava esquisito. Hoje… corre como um Fórmula 1.
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Assim está a acontecer com este blogue. Os vinhos vão sendo provados – bebidos, porque aqui há pouca ciência e mais prazer – e levam meses até se plasmarem em letras. Está bem que a minha vida não é esta… sou jornalista freelancer, não me posso dar ao luxo de faltar ou de meter baixa ou ter férias. Cada trabalho é benvido (recuso-me a escrever bem-vindo), há a família, outros óbis, dormir…
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Portanto, só posso pedir desculpa pelos atrasos a quem me enviou vinho para prova, pois partiu do pressuposto que seriam publicados os textos a eles relativos em tempo de novidade e procura direccionada.
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Uma das minhas vítimas preferidas é a firma José Maria da Fonseca. Aqui vão as linhas da minha avaliação dos vinhos enviados. Começo com os mais prováveis de chegar às mesas no Natal.
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Desta vez, ao contrário do que é hábito, coloco as pontuações junto ao texto relativo a cada vinho.
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Domini Tinto 2012
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Bendita (estão a perceber por que é que deve ser benvindo e não bem-vindo?) touriga francesa, nome da tradição e que o enólogo-mor desta casa lhe voltou a chamar. Não é envergonhada, mas não é protagonista. Porém, sem ela o Douro não pode ser Douro – ainda me vou tramar com esta afirmação.
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No lote deste vinho constam a touriga nacional (48%), a tinta roriz (30%) e a touriga francesa (22%). Um coro bem afinado, onde a touriga nacional é a maestrina, a tinta roriz os instrumentos de sopro e a touriga francesa o conjunto de vozes.
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Cá vou aos malditos descritos, pois hoje apetece-me. Lá está o doce de cereja – nada de compotas ou outro conduto de pão e bolachas – uma pitadinha de violetas. Ao fundo o terroso da touriga francesa e umas agradáveis notas de madeira. Na boca mostra-se elegante, de fino trato, com boa acidez e bom final.
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Origem: Douro
Nota: 6,5/10
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Domini Plus Tinto 2011
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Acho estranho não ter escrito antes acerca deste vinho. Consta dos meus cadernos de anotações, que inclui o telemóvel, cuja diversidade de recurso não me permite estabelecer uma linha temporal de prova. Devia escrever a data, mas sempre fui mau com números.
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Este está acima do seu sucessor. A razão, que aqui é assumidamente subjectiva, é a quantidade de sumo de touriga francesa: 68%. A tinta roriz (22%) e a touriga nacional (10%) são as parceiras. Obviamente que o trabalho enológico se repercute.
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As diferentes percentagens das composições dos dois vinhos espelharão as virtudes de cada casta em cada um dos anos. Ainda assim, acredito que a pontaria primeira à touriga nacional, no 2011, possa estar relacionada com o apetite do consumidor.
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Este é muito mais Douro. Tem os aromas bravios da região e as casas solarengas das quintas. Uma mão cheia de socalcos – não sei se a propriedade os tem, é mero recurso. Na avaliação olfactiva estão o xisto e sua terra, as estevas, aquela nota de madeira, talvez de azinho, que lhe oferece a touriga francesa. Domingos Soares Franco, enólogo-mor, refere frutos pretos… sim, não divirjo muito; às amoras, mirtilos e ameixas junto figo seco. Quanto a violetas, ná! Continuo na minha, no Douro não topo muito esta flor, parece-me sempre mais o doce, geleia e compotas de cereja e/ou outros frutos vermelhos. Na boca é equilibrado, com boa acidez e um final longo.
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Origem: Douro
Nota: 8/10
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Hexagon Branco 2013
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A marca Hexagon nasceu para os tintos e o seis a que alude referem-se ao número de castas. Neste branco há apenas quatro: viosinho (34%), verdelho (30,5%), antão vaz (20%) e alvarinho (15,5%).
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Por partes: acho gira a combinação de castas tão diferentes e de regiões diversas. Não penso que seja arriscado, é um vinho para amantes assumidos, que premeiam a diferenciação, e para os apreciadores do estilo desta firma de Azeitão.
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Como enófilo premeio as diferenças, ainda que, por vezes, não me sacie completamente o prazer. Reafirmo, este não é um blogue de crítica «séria» (é sério porque respeita o meu gosto), as provas não são cegas, o ambiente não é de sala de provas, mas de amizade e convívio e reflecte o meu gosto. Ainda assim, quando me surge um vinho que não me cai no goto, mas que tem manifesta qualidade, não o posso penalizar completamente.
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Acresce que não sou enólogo nem vitivinicultor, não tenho bases académicas para argumentar enologia nem dar conselhos comerciais e empresariais. Quem me lê sabe o quanto aprecio o trabalho de Domingos Soares Franco e sua equipa (e família).
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Já se percebeu que não gostei deste vinho. O não gostar é relativo! A escala decimal é aberta como a de Richter, sendo que o 3 é positivo, pois não vejo interesse em classificar o evitável (2) nem o imbebível (1).
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Ora, este vinho – atenção refiro-me a gosto – tem vários «defeitos»: antão vaz e alvarinho. O viosinho lembra-me o Douro dos meus amores, onde leio uma alma grande. O verdelho diz-me o nome do enólogo, que tão bom partido sabe tirar desta casta. A alvarinho é casta que raramente aprecio fora dos frios de Monção e Melgaço. No Sul, enjoa-me um bocadinho. Depois vem a casta Yeti – a abominável cultivar do Alentejo.
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Na «prova», os comensais gostaram muito. Eu não! Tenho reparado que a antão vaz só é bebível quando se lhe junta o arinto – excepção feita ao primeiro Solista, da Adega Mayor, com direcção de Paulo Laureano, que jurou que me porá a cantar laudes a esta «coisa».
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Tentando ser justo quanto a qualidade e gosto pessoal… 6! Os restantes 7.000.000.000 de terráqueos provavelmente deliciar-se-ão. Tem tudo para agradar.
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 6/10
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FSF Tinto 2011
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Adoptei não pontuar vinho de homenagem, a menos que surjam anualmente ou com grande regularidade. É o caso: Fernando Soares Franco, figura enorme dos vinhos portugueses.
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É um vinhaço! Em grande! Fez-se de syrah (79%), trincadeira (17,3%) e tannat (3,7%). Caiu-me muito bem. Mostra-se variado quanto a olfacto, desde a mineralidade quente das areias, ao figo seco, à menta e chocolate preto. Enche a boca, com calor e acidez que a equilibra, um final muito longo!
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Origem: Regional Península de Setúbal
Nota: 8,5/10
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Lancers Espumante Bruto, branco e sem indicação de ano, produzido é método contínuo.  É um vinho que calha muito bem no Verão e que na passagem de ano contrabalança os enfartamentos e os doces típicos da época.
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Tem uma acidez notória, bolhas brincalhonas a fazerem cócegas, aromas de frutas de Verão, não tropicais. É prá festa!
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Lancers Espumante Bruto
Origem: Portugal
Nota: 5/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo produtor.

terça-feira, novembro 25, 2014

Os olhos comem e os meus também bebem

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Revelado ou escondido, um Sandeman será sempre noite. O Don tem mistério suficiente. Podia ser um dos fantasmas de minha casa. Dá o abraço das coisas antigas, como uma avó, se avó fosse coisa. Andou com os meus olhos ao colo. Os olhos comem e os meus também bebem. O conforto do belo.
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Nota: Pintura de Loxton Knight.

sexta-feira, setembro 19, 2014

Casa das Gaeiras Reserva Branco 2013 + Casa das Gaeiras Reserva Tinto 2012

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Há vinhos com história ou que puxam as palavras para a conversa. São os que prefiro, seja a parlação só centrada no elixir ou vá solta por onde se deixar. Os dois que agora comento puseram-me a falar com as palavras.
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Quem só quiser ler sobre o vinho... faça o favor de saltar até onde o parágrafo começa com outra cor.
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Contaram-me que até à década de 70 do século XX o branco das Gaeiras (Quintas das Gaeiras) era especial, um sucesso de contentamento. Lamento, mas como nasci em 1970... lá em casa não havia sopas-de-cavalo-cansado.
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Ainda assim conhecia-o de nome. Mais na memória tenho o tinto. Não por que o tivesse bebido, mas porque consta dos versos do Fado das Caldas. Não sei se se refere ao vinho daquela freguesia de Óbidos ou se é relativo ao da Quinta das Gaeiras.
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Aqui confesso – possivelmente pela enésima vez – que sei que estou contentinho quando ao vinho me apetece juntar o fado e montar um cavalo... marialvismos... Ora, o Fado das Caldas tem aquele picadinho que pede mesmo... portanto, com a garganta molhada, vêm-me à alma as palavras e as notas.
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Uma coisa gira é que há um fado gastronómico que se diferencia desse apenas pelo poema, é o Fado das Iscas. Coincidentemente, quer um quer outro são interpretados por dois dos meus fadistas preferidos: Hermínia Silva e Dom Vicente da Câmara – ela tempera as iscas e ele conduz até às Caldas.
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Quem acredita no destino tem aqui uma estória que o comprova – salvo seja, que nada houve entre quem cito. O fidalgo fadista e a mulher do povo de sangue e alma na voz. Afirmo: Hermínia Silva é a maior fadista portuguesa desde a Severa – mulher da vida, de que não há registo sonoro, e que na História de juntou ao marquês de Valença.
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Baseado no romance «A Severa», de Júlio Dantas, o primeiro filme sonoro português, de 1930, centra-se nesse amor impossível do fidalgo e da rameira. No filme «A Severa, de José Leitão de Barros, as personagens são inspiradas nesse casal de circunstância. Há uma razão lógica, do ponto de vista do argumento, em fazer coincidir o título do fidalgo ao adjectivo de nobre boémio.
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No filme, a actriz Dina Teresa representa uma prostituta cigana, que se envolve amorosamente com o conde de Marialva, representado António Luís Lopes. O realizador contornou os factos, de modo a não juntar os seus contemporâneos marquês de Marialva e conde de Vimioso. No entanto, o título de Marialva foi inicialmente constituído como condado, em 1440, por Dom Afonso V, para agraciar Vasco Fernandes Coutinho. O título foi extinto, em 1534, após a morte de Guiomar Coutinho, quinta condessa de Marialva, que não deixou descendência.
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Hoje, estes cuidados parecem tolos, mas há que contextualizar. A sociedade portuguesa do início do século XX era muito conservadora e fechada, existindo um largo e fundo fosso entre o povo e as elites. Note-se que «A Severa» foi rodado apenas 20 anos após a implantação da República – que não extinguiu os títulos nobiliárquicos, considerando-os como património da nação.
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O primeiro marquês de Marialva foi Dom António Luís de Meneses, que era já o terceiro conde de Cantanhede. A honraria foi-lhe conferida, em 1661, pelo mérito militar na Guerra da Restauração (1640 a 1668), pelo Rei Dom Afonso VI.
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Há homens que marcam uma vida-tempo de tal modo que todos os outros que lhe sucedem ou antecederam deixam de existir; ninguém acredita que houve mais do que o primeiro marquês de Pombal ou que marquês de Marialva foi só o que deu nome ao conceito de homem dos prazeres mundanos, das mulheres, cavalos, toiros e dado ao vinho.
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Ao que parece, o responsável terá sido Dom Pedro José de Alcântara de Menezes Noronha Coutinho, quarto marquês de Marialva, sexto conde de Cantanhede e estribeiro-mor do Rei Dom José, considerado como o melhor cavaleiro e mestre de equitação da sua época.
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Já a Severa – Maria Severa Onofriana – não era de etnia cigana, embora o seu pai o fosse. Chamava-se, pelo primeiro nome, Severo e assim o passou por alcunha à mulher, Ana Gertrudes, e à filha. A mãe da figura histórica era natural de Ovar, talvez tivesse vindo para Lisboa para vender peixe, pois as peixeiras de rua, de canastra à cabeça, eram originárias dessa terra da Beira Litoral – o falar do povo mudou ovarinas para varinas.
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A Severa passou a vida (1820 a 1846) por quase toda a Lisboa popular, da Madragoa onde nasceu até à Mouraria, onde morreu. A mãe era taberneira e prostituta e seguiu-a na vida de cama – morreu jovem, vítima de tuberculose, no bordel que a acolhia.
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Vivia no meio da pobreza, miséria, falta de higiene, doenças, sujidade, certamente violência física, psicológica e verbal, alcoolismo, boçalidade, entre tantas desgraçadas e homens de faca, estivadores, contrabandistas, embarcadiços e gatunos... e ratazanas, percevejos, piolhos e chatos.
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Os testemunhos dão conta que teria uma beleza invulgar e exótica e grandes dotes como cantadeira... além de ter pêlos na cara em quantidade suficiente para ganhar a alcunha de «a Barbuda». Argumentos que terão enfeitiçado Dom Francisco de Paula de Portugal e Castro, segundo marquês de Valença e décimo conde de Vimioso.
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É fado!
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Isto tudo por causa do verso do tinto das Gaeiras... Já agora, o que são gaeiras? Não fazia a mínima ideia. Podia ficar sete anos a mandar bitaites que nunca chegaria lá. De acordo com o «Dicionário Onomástico Etimológico» de José Pedro Machado, é um local onde há muitos gaios.
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Giro!... gaio é um pássaro, não é?! Perguntei-me a medo – é que sou homem do campo... mas do Campo Grande, em Lisboa. Nasci ali, mas não sou dali nem do Sporting Clube de Portugal; sou de Belém, por causa do Clube de Futebol «Os Belenenses», e da Graça ou São Vicente ou Santa Engrácia ou São João ou Penha de França por vivência, e por isso simpatizante do popular Clube Oriental de Lisboa.
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Sim, tinha na ideia, pelas minhas idas ao campo, ao rural, que gaio é ave. Mas também – segundo a Infopédia – «cabo que se fixa na cabeça dos paus de carga dos navios»; gaivota juvenil; alegre; jovial – «Do latim gaudiu – alegre». Já o Priberam informa que é sinónimo de jovial e alegre; «varinha de pau flexível, terminada por laçadas feitas da própria vara»; «nome da gaivota que não tem mais de um ano»; cavalo; e «braço de uma espécie de antena que serve para amarrar à embarcação».
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De tudo isto retiro duas palavras: alegre e jovial.
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Pois que estamos diante dum local rico em gaios, ave de penas azuis e que não gosta de campo aberto. Prefere as florestas e os bosques, é uma espécie residente e vive em todo o país. Mede entre 33 centímetros e 36 centímetros, não pesa mais de 190 gramas e pode viver até aos 18 anos. Pertence à família dos corvídeos e do assentamento de baptismo consta o nome Garrulus glandarius. Se fosse gente seria artista de variedades, pois é um grande imitador de sons.
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A Quinta das Gaeiras tem uns belos jardins e floresta à volta. Fui lá conhecer os novos vinhos – produzidos em parceria com o Grupo Parras, que detém, entre outras marcas, a Quinta do Gradil – e vim maravilhado.
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Foi dito à mesa que o branco agora apresentado tem a alma desses antigos que tiveram fama. Acredito no elogio que um conviva teceu ao enólogo (António Ventura) e equipa, pois é pessoa de saber e respeito.
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Os antigos Gaeiras brancos eram monovarietais de vital. Queixou-se a equipa técnica do temperamento da casta, que cria dificuldades na vinha e chatices na adega. Muita parra, muito cacho, muita uva, muita sensibilidade ao calor, muita sensibilidade à chuva, excessivamente produtiva – basicamente uma casta com um estado de humor dum agiota com um ataque de gota (esta pertence ao jornalista João Gonçalo Pereira). Porém, capaz de dar do melhor. Ora: bom somado com muito resulta em casta predilecta na sub-região de Óbidos.
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Os agrónomos intervieram podando folhas para criar clareiras que permitissem uma maior insolação dos cachos e assassinando novelos de uvas, para que não fosse tão generosa, a videira. Tudo correu bem com o vinho de 2013 e com o anterior, que não chegou ao mercado.
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É um grande vinho! Naturalmente fresco – prometi nunca falar de pH – pelo grau e pelo temperamento, que ilude para mais frescura. Com uma doçura natural nada óbvia nem enjoativa, que não cansa a boca. Untuoso, envolvente, sedutor e elegante. Cresce no copo com os minutos. Consegue ter feminilidade, pela complexidade de aromas entrelaçados sem domínios, indicando delicadeza. Mas também masculinidade, pelo modo de se comportar na boca.
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Bebi-o alegremente a solo, mas ganha muitíssimo mais se lhe derem comida. É muito perigoso, tem 13 graus de álcool que voam como faixa de seda sobre mármore.
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O tinto é divertidíssimo. É porque com ele se pode conversar e conviver e também acompanhar com comida. Inicialmente austero de aromas, revela-se com arejamento. Se me pedissem para dizer as castas do seu lote, não acertava uma. Nem uma! Todavia, diante dos «olhos».
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Tudo o que se pode esperar da syrah (50%), da touriga nacional (30%) e da touriga franca (20%) está à vista. A soma das três não dá três. As características olfactivas esperadas estão lá, mas o todo pareceu-me outra coisa. Ondulam, escondem-se e revelam-se, evoluem, regressam.
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Mostra-se firme na boca, mas sem brutalidade. Envolve, sacia e pede que o reponham. Fundo ao ir-se, longo no ficar. Na prova oral tem também as características de não revelar o mesmo em todas as vezes que se bebe.
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O tinto é um truque de ilusionismo. Contentíssimo.
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Além da inegável qualidade, são vinhos muito interessantes e didácticos. Cansam-me os vinhos perfeitinhos, com tudo no sítio – como a Barbie e o Ken. Estes são perfeitos (a perfeição só Deus sabe e conhece), mas mais do que filhos da técnica.
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O maestro é António Ventura. Aplaudo de pé!
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Casa das Gaeiras Reserva Tinto 2012
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Origem: Óbidos
Produtor: Grupo Parras
Nota: 7/10
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Casa das Gaeiras Reserva Branco 2013
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Origem: Óbidos
Produtor: Grupo Parras
Nota: 8/10
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Nota1: Gaio, pelo pintor Nigel John Shaw.
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Nota 2: Vídeo do Fado das Caldas  versos de Arnaldo Forte e música de Raúl Ferrão. Interprete: Dom Vicente da Câmara. Os dados relativos à autoria são nebulosos, havendo referências como sendo de outros criadores. Esta informação foi retirada duma partitura que consta do acervo do Museu do Fado. Porém, a mesma instituição possui partituras em que surgem outros nomes. Contactei um etnomusicólogo, que esteve envolvido no trabalho de candidatura do fado a Património Cultural Imaterial da Humanidade, que me referiu que é comum, no início do século XX, haver discrepâncias quanto aos autores.
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Nota 3: Diaporama do Fado das Iscas  versos de José Cosme e música de Raúl Ferrão. Interprete: Hermínia Silva. A situação face à autoria mantém-se.
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Nota 4: Exerto do filme «A Severa», de Leitão de Barros, com Dina Teresa (Severa) e António Luís Lopes (conde de Marialva).
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Nota 5: Estátua do quarto marquês de Marialva, do escultor Celestino Alves André.
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Nota 6: Quadro «O Fado», pintado por José Malhoa.
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Nota 7: Diaporama sobre o gaio, realizado Dom Sobreiro e acessível em www.youtube.com, onde consta o contacto do autor.

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sábado, setembro 13, 2014

Lancers Espumante Bruto Rosé

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O prazer das coisas simples: sair da chuva e entrar em casa e mergulhar na banheira com água tépida. Apanhar conquilhas para o arroz. Beber uma Água das Pedras numa sede de alucinação. O abraço da criança que nos ama e amamos. O abraço da mãe e o beijo do pai. Brincar com Legos, preguiçar, sair para correr, fazer festas ao cão e ao gato. Piquenicar no Verão. No Inverno a lareira ou repousar quentinho e embrulhado em mantas, com os olhos a fecharem-se, a ver uma comédia romântica na televisão.
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O que é exactamente a felicidade e a alegria? É a diferença entre ser e estar. E contente é a ponte entre as duas.
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Estava triste e alegrei-me. Porquê? Pela boa disposição dum vinho – descomplicado, leve e jovem. Um vinho que entrou circulou por mim, como remédio homeopático.
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Em espumante elaborado em método contínuo (charmat)... importa? Talvez importe... não quero saber disso.
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Sim, a borbulhagem viva e em movimento perpétuo. A delicadeza da fruta e das flores. Quais? Não quero saber, nem procurei e muito menos pensei em dizer. Senti pelos olhos, estômago, cérebro, coração e alma – o arrepio quente dum fantasma amigo.
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Definir um vinho pelos parâmetros de avaliação é tantas vezes aborrecido como dizer que o João está gordo, tem o cabelo preto a esbranquiçar-se, também na barba, e a encarecar-se, olhos castanhos, que variam entre o escuro, o mel e até verde-azeitona.
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Castelão e syrah, 12,7 graus de álcool. Explicar o quê?
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Origem: Portugal
Produtor: José Maria da Fonseca
Nota: 8/10
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Nota 1: Este vinho foi enviado para prova pelo produtor.
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Nota 2: Tenho crónicas vínicas atrasadas, mas não consegui resistir a este. Costumo juntar numa mesma crónica lançamentos ou vinhos irmãos. Este... Parabéns Domingos Soares Franco e à tua equipa. Ganhei o dia.

sábado, agosto 30, 2014

Adega de Borba Premium Branco 2013

Porem-me a gostar dum vinho com antão vaz é feito. Este compadri tein-ín e nã me fez muito mali.
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A Adega de Borba tem vindo a mostrar uma grande consistência nos seus vinhos. Ser-se regular não é bom nem é mau, pois pode ser as duas coisas. Pois a Adega de Borba tem vindo a mostrar uma bela regularidade e com tendência crescente.
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Já se sabe que vai levar uma aparadela por causa do antão vaz – lamento, a casta complica-me com o olfacto e o paladar. Convém dizer que está amparada pelas outras que compõem o lote: arinto, verdelho e alvarinho.
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A ficha técnica não especifica a percentagem de cada uma das castas, mas a frescura deve muito à arinto. O verdelho tempera muito bem, a alvarinho dá gulodice...
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É um vinho frutado, mas não é a cesta da fruta. Maçã granny smith, notas de banana, abacaxi, pêssego (julgo que vem da alvarinho) podia ser mais moderado. Não escrevi nos meus apontamentos, mas quando agora escrevo vem-me à cabeça uma passagem de melão... pôs que nã sê.
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Resultado harmonioso, prazenteiro na boca. Vinho para todo o ano.
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Conforme os princípios assumidos, em que a apreciação é assumidamente subjectiva e obedecendo apenas ao meu gosto pessoal, mas não pretende penalizar, só porque não gosto, vinhos que outros poderão considerar acima... a minha nota final estará meio ponto a um ponto abaixo do que merecia o vinho se fosse menos narcisista e cioso das minhas preferências. Não é preciso ser-se bruxo... antão vaz.
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Origem: Alentejo
Produtor: Adega de Borba
Nota: 6,5/10

Trinca Bolotas 2013 + Vinha do Monte Rosé 2013

Epá! Que delícia! Encantei-me. Um temperamento tão easy going... não gosto e não costumo estrangeirar, mas aqui tem de ser, porque é um vinho capaz de agradar em todo o mundo.
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Ser fácil (é!) e haver muito (julgo que sim!) não são sinónimos de não prestar – quem duvida que vá ver os números de Champanhe e das grandes casas. Aquelas duas características que apontei têm uma – de várias razões – competência enológica. Ponto!
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Apesar do que disse, a verdade é que «fácil» normalmente significa desinteressante. Fazer-se muito é habito ser medíocre. É um vinho muito fácil e bom prazer me deu.
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Não é um grande vinho e nem será essa a ideia. É um vinho tinto muito agradável, equilibrado, que vai bem, no Verão, num jantar menos leve e que acompanha comidas te tempos mais frescos.
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Este vinho nasceu na Herdade do Peso, em Pedrógão, concelho da Vidigueira. As castas do seu lote são: alicante bouschet (44%), touriga nacional (40%) e aragonês (16%).
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É um tinto jovem, muito frutado, mas sem que nem morangos, amoras, framboesas, mirtilos e ameixa tenha esmagado a outra. Como é fresco, não é compota para barrar no pão.
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Duas coisas que não têm nada a ver: o nome é «MUINTA GIRO» e o rótulo muito simpático. Penso que a Sogrape, da produção ao marketing, passando pela agência que concebeu a face estão de parabéns.
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No dia em que foi apresentado, serviram um Vinha do Monte Rosé 2013 que é 120% Verão. Também ele fácil... embora em patamar mais abaixo do Trinca Bolotas.
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Trinca Bolotas 2013
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Origem: Alentejo
Produtor: Sogrape
Nota: 7/10
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Vinha do Monte Rosé 2013
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Sogrape
Nota: 5/10
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Nota: Não sei qual é a fixação dos produtores em escrever aragonês com grafia do século XIX (aragonez), que foi o tempo de maior confusão da língua portuguesa, pelo menos na matriz europeia.

quinta-feira, agosto 28, 2014

José de Sousa Tinto Velho 1940 e o seu tempo

Olá! Poderia colocar a crónica sobre este vinho aqui no blogue. Porém, o texto é praticamente uma evocação da época. Do vinho escrevi pouco.
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Todavia deixo a ligação directa para o infotocopiável. José de Sousa Tinto Velho 1940 e o seu tempo.

quarta-feira, agosto 27, 2014

Mário Sérgio celebra 25 anos da Quinta das Bágeiras

Mário Sérgio (Alves Nuno) nasceu na Bairrada e numa família com vinhas. Lembro-me quando o visitei pela primeira vez, contou-me que houve camponesas a queixarem-se ao pároco por causa da monda de cachos. Desperdício de alimento é pecado!
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Este bairradino assinalou 25 anos como vitivinicultor e chamou, à aldeia da Fogueira, amigos, familiares e jornalistas. Lá a meio do convívio rasgou um sorriso e deu-me um abraço:
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– Epá! Já nos conhecemos há uma data de anos.
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Pois já! Fui em reportagem pelo programa «Da Terra Ao Mar» (RTP 2 – domingo às 11h00) – era muito mal pago, mas foram os anos profissionais que mais gostei de viver. Dez anos! O texto da reportagem data de 13 de Outubro de 2004, pelo que a visita deve ter acontecido em finais de Setembro ou no início do mês seguinte. Não me lembro se estava em vindimas.
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O vinho é uma complexa criação humana, com várias nuances e significados, seja directos, seja indirectos:
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– Alimento de alimentar, alimento de comida, objecto sagrado, droga social (álcool) do Ocidente, com ele se brinda ao amor, se afogam desamores, se celebra o Natal, o Ano Novo, a Páscoa, os aniversários... A grosso modo, pois assume ainda mais contornos e funções...
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A Bairrada é uma região especial. O consumidor contemporâneo, que usufrui sem chegar a ser enófilo, não a compreende muitas vezes. Uma região que nem muitos bairradinos a entendem.
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Lá vem a polémica das castas (tem de ser): uma denominação de origem tem de ser tradição. A evocação duma denominação de origem não significa maior nem menor qualidade do que menção «regional». Quanto a mim, cada um planta o que quer, seja qual for a razão e critério. Custa é ler num rótulo Bairrada (ou outra) menções a cabernet sauvignon, merlot, viognier, sauvignon blanc ou outra qualquer – por muito bons que sejam os vinhos. Desde já afirmo que gosto mesmo muito dos néctares de Carlos Campolargo, mas há alguns que, no meu conceito de região, não deviam ser classificados como Bairrada. Bem, assunto encerrado. Entendam-se, organizem-se e tenham sucesso.
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O Mário Sérgio é um rosto da tradição. Se transgride é ligeiramente e pontualmente. Os Quintas das Bágeiras são mesmo Bairrada! O seu enólogo Rui Moura Alves, homem que se formou e doutorou sozinho – grande valor.
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A publicação desta crónica está atrasada – como as que recentemente saíram e as que estão na calha. O que talvez seja uma vantagem, pelo distanciamento face a 10 de Julho, quando se deu a festa e o lançamento de três vinhos de homenagem.
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Visitar Mário Sérgio implica ganhar peso. Não há volta a dar. O vinho é rico em calorias e o leitão é pecaminoso. O Mugasa – a par da Casa Vidal – faz o melhor leitão da Bairrada que conheço. O nosso vinhateiro tem forno e uma relação de amizade próxima com o proprietário e assador do Mugasa.
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Garantidamente leitão. Leitão português e bairradino (não sei se bísaro). Assado com lenha de videira. Os leitões do Mugasa abrem a porta para o paraíso gastronómico... ou seja, vai toda a gente parar ao Inferno.
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Nesta celebração dos 25 anos, Mário Sérgio apresentou os vinhos Quinta das Bágeiras Pai Abel Branco 2012, Quinta das Bágeiras Pai Abel Tinto 2009 e Quinta das Bágeiras Avô Fausto Tinto 2010.
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Tratando-se de vinhos de homenagem não os classificarei. O Quinta das Bágeiras Pai Abel Branco 2012 resulta dum lote de maria gomes e bical. O Quinta das Bágeiras Pai Abel Tinto 2009 é composto por baga (80%) e touriga nacional. O Quinta das Bágeiras Avô Fausto é formado por uvas baga (90%) e touriga nacional.
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Grandes vinhos da Bairrada. Grandes vinhos em qualquer lugar em que haja quem saiba apreciar. A Bairrada não é a Disneylândia.
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Mário Sérgio teve (obrigatório) de subir a uma cadeira e discursar. Improvisou e emocionou-se. Por tudo destes 25 anos.
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Que venham mais 75!

Virgo Branco 2013 + Torre do Frade Viognier 2013

Há vinhos de enólogo, vinhos de produtor, vinhos do consumidor, vinhos dos críticos, vinhos para concurso. Nenhum significa bom ou mau, há de tudo. Penso – posso estar enganado – que os vinhos da Torre do Frade são simultaneamente vinhos de produtor e de enólogo.
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Há muita gente a comprar terra e pelas mais variadíssimas razões. Muitas vezes, o lazer tem de ser compensado com uma actividade económica, para que se possa manter o luxo. Muitos apostaram na vinha e no vinho – uns bem e outros mal. Dentro destes, uns são enófilos outros são empresários.
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Fernando Carpinteiro Albino – e família – não estão na agricultura porque ganharam dinheiro na bolsa ou na construção ou... ou... ou... São alentejanos de sotaque e já percebi que também de temperamento.
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A sociedade familiar que gere as propriedades não existe para poesia, mas para criar riqueza. Mas, ao contrário doutros lavradores – antigos, pára-quedistas, vaidosos – o vinho não é só negócio.
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Os Carpinteiro Albino gostam do que fazem – numa casa de lavoura, especialmente no Alentejo, há muito para fazer – e o vinho talvez seja a que mais apreciem, embora a criação de gado bovino de raça alentejana também lhes proporcione prazer.
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Penso ser importante referir estes aspectos, porque nem sempre são uma realidade e fazem parte do «ser»... [palavras como projecto, filosofia, conteúdo... fazem-me urticária em algumas coisas].
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Já tive o prazer de me sentar à mesa com os Carpinteiro Albino e nota-se bem o brilho com que apreciam os seus vinhos. Conhecendo Fernando Carpinteiro Albino – o chefe – há 19 anos é natural que lhe conheça algumas características pessoais. Duas delas são a franqueza e a coragem de dar o corpo à luta.
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Estão no vinho! Porque é um vinho de produtor. Não entraram num táxi e disseram para o motorista os levar onde quisesse. Chamaram um dos melhores enólogos do país, homem da região, para dar nascimento aos néctares.
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As suavidade, elegância e polimento de Paulo Laureano estão também nos vinhos desta casa situada no concelho de Elvas. Quem conhece os vinhos deste enólogo reconhece-lhe uma linha coerente – tem um estilo próprio. E tem a competência técnica (quem sou eu para o afirmar) para fazer o perpétuo Mouchão – que é como a equipa do Ajax, que venha que treinador vier a táctica é sempre a mesma – como para apoiar ou aconselhar o mais autónomo e «desalinhado» José Mota Capitão.
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Os vinhos da Torre do Frade têm a caligrafia de Paulo Laureano, bem desenhada e respeitadora da encomenda. Por isso, penso que a Torre do Curvo (Frade) faz vinhos de produtor e de enólogo.
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Não pude estar presente na apresentação em Lisboa de dois brancos da Torre do Frade. Fizeram-me chegar as botelhas a casa e foram provadas cumprindo as rígidas formas de análise do bloguista: ambiente de convívio feliz, à mesa, sem estresse (adoro), rótulo à vista...
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Atenção: blogue é prazer e respeita apenas gosto pessoal, condimentado com bom-senso (espero), respeitando a linha que divide gosto pessoal e a qualidade intrínseca quando não coincidentes. Não sou crítico profissional. Nos concursos em que tenho feito parte do júri, os meus parâmetros não são os do blogue. As provas cegas são o que Churchill disse da democracia:
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– É o pior dos regimes políticos, com excepção de todos os outros.
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Cá em casa o regime é monárquico e absolutista e o pensamento iluminista só é usado em assuntos específicos. Portanto...
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Quanto aos vinhos que me chegaram, Virgo 2013 e Torre do Frade Viognier 2013, começa agora a sua entrada em cena.
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O Virgo é o que mostra o rótulo. Um vinho divertido, bem-disposto, descontraído, veraneante... e felizmente não tem no lote a casta maldita! Viognier em esplendor. É elegante e fundo. É um vinho sem estágio em madeira, pelo que a flor de laranjeira, a evocação de tangerina não ganharam as notas de manteiga e de fumo que andam a infestar muitos vinhos alentejanos. Há depois algum abacaxi que reforça a frescura.
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Quanto a mim, o melhor Virgo que bebi.
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O outro já é outra coisa. É para jantar e de casaco vestido. Pode apresentar-se na Real Mesa. Com corpo e frescura, ainda assim delicado. Um cavalheiro. Complexo, com evocação de laranjeira, maçã verde (nunca me lembro do nome da cultivar), manteiga suave, banana ao de leve e mais umas tropicalidades domesticadas. Fuuuundoooo na boca. Honra os antepassados.
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Virgo Branco 2013
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Sociedade Agrícola Torre do Curvo
Nota: 7/10
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Torre do Frade Viognier
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Sociedade Agrícola Torre do Curvo
Nota: 8/10

Portal da Calçada Reserva 2012

Tenho notado em mim uma certa embirração com os Vinhos Verdes. Não é o «ódio» que tenho à casta alentejana antão vaz, é outra coisa. É pura parvoíce minha, até porque não tem justificação.
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Não costumo beber vinho mau e qualquer má experiência, nos primórdios, terá sido tanto com um Vinho Verde como com qualquer outro. Apesar da comichão injustificada, nunca deixei de recomendar Vinhos Verdes a amigos que me pedem conselho. Sei que é puro preconceito meu.
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E tanto assim é que quando bebo um Vinho Verde – já referi que não costumo fustigar-me com mau vinho – delicio-me com a frescura e delicadeza que emanam. Não sei se alguém me lê pela primeira vez, pelo que volto a referir que embora o meu gosto pessoal prevaleça sobre qualquer outro aspecto, não penalizo um vinho bem feito apenas porque não gosto. Tal seria indelicado ou até insolente. Quando existe tal situação realço sempre o facto.
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Neste caso, a situação não se põe. O prazer de o beber condisse com a qualidade que tem. É um vinho muito fresco e equilibrado, sedutor. Não será um vinho de piscina, mas um tanque de fundo azul com água batida pelo Sol, para divertimento, e mesa posta com os comeres do Verão é maravilha de se ter. Um mergulho, salta, três rodelas de tomate, um golinho e salta lá para dentro. Gente mais séria terá igual prazer na sua mesa conservadora. Sublinho que não é vinho de piscina.
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Tem delicadeza da flor de laranjeira e aroma e sabor com presenças cítricas e de abacaxi, raspas de casca de laranja verde. Sem concessão aos pêssegos muito maduros nem aos aborrecidos maracujás – estão lá, uma e outra fruta, mas estão a saber comportar-se.
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Quinta da Calçada situa-se em Amarante – bonita terra – e o Portal da Calçada é o vinho de entrada de gama. A sub-região é a de Amarante (já se percebera) e as uvas do lote foram loureiro, arinto, azal e trajadura.
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Não sei se para facilitar a leitura ao consumidor ou se por naquela sub-região ter o nome mais corrente da casta, faz-se referência a arinto e não a pedernã. A talhe de foice uma coisa que não interessa mesmo nada: pedernã é um nome horrível!
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Origem: Vinho Verde
Produtor: Agrimota
Nota: 6/10

Azeite Oliveira Ramos Premium Virgem Extra + Quinta da Lagoalva Azeite Virgem Extra

Nasci numa família com ligações ao Alentejo. Por isso, os sabores daquela província, que se estende por quatro distritos, são-me familiares. Os meus primos têm oliveiras e as azeitonas iam para um bom lagar, com a certeza de que o óleo que levavam provinha das suas azeitonas.
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Muito bom azeite faziam os meus primos. A revolução nos lagares – necessária, devido à poluição das águas ruças – causou o encerramento dalgumas unidades de transformação, entre as quais o lagar onde os meus primos mandavam fazer azeite.
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A família urbanizou-se e o «possível» é num lagar em que vai tudo ao molho, entregam-se X toneladas ou quilogramas de azeitonas e recebe-se Y de azeite. Pois, o belo azeite dos primos foi-se...
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A minha geração tem os pais oriundos do campo. Todos com parentela com uma leira e quatro ou cinco oliveiras. O cheiro – às vezes fedor – desses azeites fazia-me confusão. O que era aquilo? Hoje sei o que é, na infância e juventude não percebia.
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Coincidentemente, nenhum dos camaradinhas tinha família no Alentejo, pelo que a minha justificação provável é que se tratava de regionalismo. O primeiro azeite comercial pelo qual me apaixonei era (é) do Alentejo e «tal e qual» o dos meus primos... a teoria batia certo, as azeitonas do Alentejo dão melhor azeite.
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Mentira – percebi depois. E lembro-me do prazer que me deu o primeiro azeite bom que não era do Alentejo – da Cooperativa de Freixo de Numão, colheita de 2004 e que vencera um prémio no Concurso Mario Solinas, do Conselho Oleícola Internacional, as olimpíadas.
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Felizmente, hoje há muitos produtores apostados na qualidade, desde os azeites de ourivesaria aos mais industriais. Quem quiser comprar um bom azeite encontra-o com facilidade – no vinho é muitíssimo mais notório, mas a revolução foi anterior.
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Tenho dois azeites para comentar há meses – perdoem-me os olivicultores pela demora na publicação da crónica – que são exemplos do que de melhor se faz no país. Tal como no vinho, não faço sentenças acerca da relação entre a qualidade e o preço. Penso que são acessíveis às bolsas da classe média (a que vai resistindo) e às possibilidades financeiras (via prioridades) dos gastrónomos.
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Tenho muito mais dificuldade em escrever sobre azeite do que sobre vinho, embora ambos sejam sagrados nas culturas mediterrânicas. A dificuldade que encontro – preconceito ou incompetência – é o azeite ser «apenas» sumo de azeitona e o vinho ser mais complexo.
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Isso é factual, mas classificar dessa forma tão redutora seria até falta de educação.
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A qualidade ou o seu reconhecimento não se escreve a metro. Tudo na vida tem um nascimento, um tempo, uma história, um estatuto... a ideia de que o azeite (ou outra coisa) do produtor pequenino é que é bom é tão verdade como mentira. Tal como se aplica ao grande produtor.
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Tal como as azeitonas virem dum olival velho e pouco produtivo ou dum moderno e cultivado em sebe. Muito não significa mau... repare-se no exemplo dos vinhos de Champanhe. Casas importantes comercializam centenas de milhares de garrafas de espumante de grande qualidade. O Ti Zé faz 30 litros de azeite e o sumo fede.
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Hoje já está com a alguma divulgação a função que cada azeite desempenha na comida, se para fritos ou se para temperos em cru.
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Qualidade, raridade e reputação fazem preços – criam mitos. Não entrando na questão dos preços, peço que atentem ao valor pedido por uma garrafinha de azeite da Quinta do Noval, onde o negócio é vinho.
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Os dois azeites que justificam este texto têm em comum serem produtos de empresas agrícolas. Digo empresas, porque são geridas de forma muito profissional, têm uma dimensão considerável no nosso mundo rural, e sabem bem o que fazem.
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O primeiro vem de Estremoz e fez-se com azeitonas das cultivares cobrançosa, galega e picual – árvores com raízes enfiadas em solo de xisto. Ao contrário do que era (é) hábito, estes frutos foram colhidos cedo, tendo em atenção à frescura e características organolépticas pretendidas.
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O azeite Oliveira Ramos Premium Virgem Extra 2013 é a prova que numa mesma província há diferenças. Não lhe reconheço os aroma e sabor do azeite dos meus primos. Encontro uma frescura vegetal e um certo picante. O produtor é João Portugal Ramos.
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O outro azeite é também delicioso. Foi produzido a partir de azeitonas das cultivares frantoio e moraiolo. O produtor é a Quinta da Lagoalva de Cima, junto a Alpiarça. Ora, que bizarria é esta de fazer azeite com variedades italianas?
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A Quinta da Lagoalva de Cima pertence à família dos duques de Palmela e, através do ramo Holstein, está ligada à Casa Real da Dinamarca. Em Itália, os Holstein tinham propriedades e de lá, do Piemonte, trouxeram oliveiras e uma tinta com um tom verde lindíssimo, que se mantém como tradição familiar nas paredes das casas.
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Estas oliveiras, com mais de 200 anos, dão um azeite diferente... como explicar?! São apanhadas cedo, ao modo italiano, e o seu sumo é muito fresco e aromático, um embaixador do Piemonte e da Toscânia.
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No programa «Da Terra Ao Mar», da RTP 2, visitei a Quinta da Lagoalva de Cima em reportagem acerca do azeite destas duas variedades italianas. O embate foi histórico – quem viu o início entrevista não se esquece da resposta à primeira pergunta que coloquei a Manuel Campilho, que é dono e patrão da Quinta da Lagoalva de Cima. Fiquei amigo.

sábado, agosto 16, 2014

Senses Alvarinho 2013

A casta alvarinho fez as malas e abalou para conhecer o país, quiçá o mundo. O Alentejo têm-na recebido bem, com boas vendas – ou seja, a aposta foi ganha. Não sei qual a classificação à chegada da meta, mas penso que a Adega de Borba foi das primeiras casas a cultivar esta casa do Alto Minho e Galiza.
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O resultado é bem diferente. Sendo diferente é comparável? É!... Sempre que a Adega de Borba lança um Senses tenho sempre notado a sua especialidade, o carácter que está subjacente, mas discreto, à marca.
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Aqui torna-se num tropical mais doce e declarado, mas com presença de lima e tangerina e casca de laranja. Envolve a boca e tem bom final.
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O alvarinho marca Borba. É diferente – não há como a nossa casa. O resultado é francamente bom, mas a sub-região de Monção e Melgaço é o seu terroir. No Alentejo é natural que seja mais quente, todavia é um vinho fresco e que pede comida. Para aperitivar há brancos mais indicados. A Adega de Borba recomenda-o para peixes gordos, acrescento Queijo de Niza ou Queijo Picante de Castelo Branco.
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Origem: Regional Alentejano
Produtor: Adega de Borba
Nota: 6/10

Burmester Branco 2013 + Curva Branco 2013 + Kopke Branco 2013

A Sogevinus é uma casa de Vinho do Porto! A empresa (julgo que ainda controlada pelo banco galego Caixanova) detém importantes marcas de Vinho do Porto (Kopke, Burmester, Calém, Barros e Gilbert’s), mas avançou também para os vinhos de mesa, com denominação de origem Douro.
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Bateram-me à porta para me entregarem três garrafas das novidades de branco: Curva Branco 2013, Burmester Branco 2013 e Kopke Branco 2013.
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Bem... os vinhos não são maus nem estão mal feitos... Mas situam-se muitos patamares abaixo donde estão os Vinhos do Porto da casa. Parece-me – e essa questão não é da minha conta – que se estão a prejudicar.
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Quanto a estes vinhos Douro em concreto...
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O Burmester Branco 2013 vence os manos. É mais complexo, com fruta citrina e flor de laranjeira, associadas a notas minerais.
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O Curva Branco 2013 registo-o mais «à moda», com a fruta tropical, a sensação de doce... Recomendo-o para uma esplanada ao ar livre, à conversa numa noite cálida.
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No Kopke Branco 2013 elogio-lhe a mineralidade, com frescura. É um vinho descontraído, enquadrado numa refeição ao ar livre, seja em esplanada ou no terraço de casa.
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Burmester Branco 2013
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Origem: Douro
Produtor: Burmester/Sogevinus
Nota: 4,5/10
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Curva Branco 2013
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Origem: Douro
Produtor: Calém/Sogevinus
Nota: 3,5/10
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Kopke Branco 2013
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Origem: Douro
Produtor: Kopke/Sogevinus
Nota: 4/10
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Nota: Estes vinhos foram enviados para prova pelo produtor.

Flor das Tacedeiras 2013 + Quinta das Tecedeiras Port Special Reserve

A dupla Marcelo Lima e Tony Smith não se contenta em fazer «estragos» na região do Vinho Verde. Ainda bem, pois trazem aragem consigo. Não sendo portugueses conseguem, por certo, ter uma visão de distância, ao mesmo tempo, o prazer, mais do que comprovado, pelos néctares cá da gente.
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Na Quinta das Tecedeiras, na sub-região duriense do Cima Corgo, mora uma maior tradição do que na «outra» quinta (ver crónica abaixo). Em equipa que vence não se mexe, pelo que reparei no cuidado entre a assinatura dos produtores, enólogo (Carlos Lucas) e o carácter da região.
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Não falei propriamente com o enólogo e com os promotores, mas julgo que não falho se disser que a frescura é o Graal. Em Baião, Rui Cunha persegue a taça, em Ervedosa do Douro o cavaleiro é Carlos Lucas.
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A Quinta das Tecedeiras tem a seu favor a localização na margem esquerda, menos ensolarada – voltada a Norte. Não vá o clima estar mesmo a mudar, para mais quente, e este factor será vital.
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Há uma gireza nesta coisa da geografia ou da orografia. A frescura, que por regra ascende montes, aqui é conseguida entre os 90 e os 190 metros de altitude. Para quem tem dificuldade em localizar mentalmente esse intervalo, refiro que o Aeroporto da Portela, em Lisboa está a 114 metros de altitude – não é portanto um monte dos Himalaias.
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Bom, quantos aos vinhos apresentados, foi o Flor das Tecedeiras 2013 (Douro) e Quintas das Tecedeiras Port Special Reserve (Porto).
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O Flor das Tecedeiras 2013 não é, portanto, uma bomba. A ficha técnica refere estágio em madeira, mas não especifica. Deduzo que tenha estagiado em barricas já com alguns anos e/ou por um curto espaço de tempo.
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O enólogo recomenda-o para queijos... direi: jamais! Percebo a vontade de mostrar polivalência, mas não é preciso chegar a tanto. Quanto a pizas, idem, idem, aspas, aspas. Sigo para carne de vaca mal passadas, a sugestão das almôndegas... por aí.
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Este vinho com denominação Douro fez-se com uvas touriga nacional, tinta barroca, touriga franca, tinta roriz, tinta amarela e o ramalhete habitual das vinhas velhas.
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Quintas das Tecedeiras Port Special Reserve resulta dum lote de uvas das castas touriga nacional, touriga franca, tinto cão, tinta roriz, tinta barroca, tinta amarela, moreto e sousão... O lote compreende vinhos com uma média de 12 anos.
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Não sendo um topo de gama, não é um de gama básica. Gosto de vinhos com este perfil em duas ocasiões muito concretas: bebericar (fresco) enquanto cozinho e após o final das refeições, já numa decente temperatura de 16 graus Célsius, com figos secos e amêndoas.
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Flor das Tecedeiras 2013
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Origem: Douro
Produtor: Quinta das Tecedeiras
Nota: 6/10
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Quintas das Tecedeiras Port Special Reserve
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Origem: Douro
Produtor: Quinta das Tecedeiras
Nota: 6/10


Covela Rosé 2013 + Covela Edição Nacional 2013 – Arinto + Covela Edição Nacional 2013 – Avesso + Covelo Escolha Branco 2013

Nunca fui a Baião, onde se situa a Quinta da Covela, que depois de sobressaltos empresariais encontrou em Marcelo Lima e Tony Smith um rumo. Os vinhos da quinta estavam bem cotados e os que nasceram desde que esta dupla de empresário tomou conta dos destinos da propriedade mantém-se num patamar de qualidade inegável.

Antes de continuar... nunca fui a Baião – que me lembre – e a terra sempre me causou irritação nervosa... a vila não tem culpa do irritante saltitão do João e do seu macaco Hadriano. Fui procurar fotografias e não me parece mal.
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O que me parece muito bem é a Quinta de Covela e os seus vinhos. Na propriedade juntam-se castas típicas da região do Vinho Verde, nacionais e internacionais. Com elas, Rui Cunha, o enólogo, consegue fazer um conjunto de vinhos diferenciados entre si – pode pensar-se nas diferentes casaras, mas nem sempre é óbvio – e com um perfil coerente.
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Num evento em Lisboa, foram-me dados a provar – com comida, porque fiz uma confusão qualquer e cheguei depois da prova, o que até talvez tenha vantagens – quatro vinhos, dois quais três brancos e um rosado.
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Começo pelo diferente, pelo Covela Rosé 2013; é um vinho fresco, com secura final, mas não um mono sem sabor. Achei curioso o comportamento da touriga nacional nesta zona de fronteira do Vinho Verde com o Douro. É um vinho com elegância e – preconceito – feminino, pois nele convivem rosas, violetas e flor de laranjeira.
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O Covela Edição Nacional 2013 – Arinto é um vinho feito à minha medida. Já nem suspeito sou, tantas são as vezes que elogio a casta arinto, que talvez seja a melhor variedade branca portuguesa.
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Na região dos Vinhos Verdes chamam-lhe pedernã, mas além de ser um vocábulo muito feio – acho horrível, pedernã – há de facto vantagens numa sinonímia comum em todo o país. Chama-se «Nacional» por ser resultado de uvas duma cultivar portuguesa. Mais uma vez revela-se elegância e frescura, onde a fruta citrina se conjuga com a flor de laranjeira e alguma rosa, muito subtil.
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O Covela Edição Nacional 2013 – Avesso segue a linha escorregadia. Ainda os citrinos e a flor de laranjeira. Se o anterior era delicado, este é delicadíssimo.


Em conclusão. Penso que não posso designar estes vinhos como típicos Vinhos Verdes – atenção, não vi o rótulo, pelo que desconheço se tem o selo de certificação ou se é um regional Minho – têm um «mundo» dado pelos empresários, o brasileiro Lima e o britânico Smith, e que o enólogo terá interpretado à altura – deduzo.
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São vinhos frescos, fáceis de se gostar e seguem um perfil cítrico, que os une, mas não os torna iguais.
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Por fim, o Covela Escolha Branco 2013 tem outras pretensões – é mais internacional. Fez-se sobretudo com avesso e chardonnay – há mais, mas não foi revelado – donde resulta alguma untuosidade. Curiosamente foi o que notei mais mineral.
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Covela Rosé 2013
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Origem: Vinho Verde (não vi o rótulo, pode ser regional Minho)
Produtor: Quinta da Covela / William Smith & Lima
Nota: 6/10
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Covela Edição Nacional 2013 – Arinto
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Origem: Vinho Verde (não vi o rótulo, pode ser regional Minho)
Produtor: Quinta da Covela / William Smith & Lima
Nota: 6,5/10
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Covela Edição Nacional 2013 – Avesso
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Origem: Vinho Verde (não vi o rótulo, pode ser regional Minho)
Produtor: Quinta da Covela / William Smith & Lima
Nota: 6/10
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Covela Escolha Branco 2013
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Origem: Regional Minho (não vi o rótulo, mas contendo chardonnay...)
Produtor: Quinta da Covela / William Smith & Lima
Nota: 6,5/10