terça-feira, dezembro 18, 2007

Homenagem a António Carqueijeiro 1999

Do lado de quem paga, o único defeito é o preço. Do lado de quem produz deve haver um gozo tremendo. Aliás, o prazer em fazer coisinhas boas é bem conhecido em José Bento dos Santos.
Quando está para sair (se não saiu já) o novo número fora de série, bebi pela primeira vez um Homenagem a António Carqueijeiro. Fiquei feliz. Este sirah temperado com viognier é uma maravilha de se beber.A fruta é preta, mas julgo que não será asneira dizer que por ali também há alguma cereja. Gostei mais da mineralidade, da linha de chocolate e do encanto dado pela madeira.

Origem: Regional Estremadura
Produtor: Quinta do Monte d'Oiro
Nota: 8/10

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Gouvyas Vinhas Velhas 2003

Eis mais um vinho grande do Douro. Muito elegante, mas orgânico, com grande vida. Fruta delicada e madeira equilibrada. Uma delícia.

Origem: Douro
Produtor: Bago de Touriga
Nota: 8/10

Charme 2004

Um vinho muito fino e elegante. Fruta deliciosa e bela madeira.

Origem: Douro
Produtor: Niepoort
Nota: 8,5/10

quinta-feira, outubro 11, 2007

Dolium Escolha Antão Vaz 2006

Os críticos encartados gostam de se colocar numa posição quase divina e dizem que se distanciam dos seus gostos quando fazem as suas provas. Seja. Será. Não acredito, mas pronto. Por mim reconheço que o meu gosto molda a maioria das minhas opiniões, embora não cegue as análises.
Vem tudo isto a propósito dum vinho que não sendo mau - no sentido de mal feito - aliás tido como muito bom não me passa no goto. O enólogo é de insuspeitável competência, com muitas provas dadas e bela reputação. Contudo, o vinho que é bom ou muito bom é insuportável.
Pesando o gosto e a necessária distância face ao objecto, julgo que este é dos vinhos que mais dificuldade me deu para chegar a uma nota equilibrada. Tentei ser justo comigo (opinião e gosto) e com o produtor (competência, empenho, conhecimento). Uma nota que não deixa de ser positiva, mas que fica aquém das expectativas para este produto, fama e preço.
Diz-se em português vernáculo: é um vinho cheio de mariquices. É demasiado delicado. Demasiado frutado. Demasiado fácil, que até chateia. Aliás, nem chega a agradar. É a ilustração da moda (nunca uma caricatura), no nariz e na boca. Tão frutado que é enjoativo... e floral como um guarda-fato de velha gaiteira.
Lamento: não gostei mesmo nada deste vinho aplaudidíssimo (provavelmente de forma acertada).
Com toda a certeza ouvirei: «Não gostas? Há quem goste, mais fica!»

Origem: Regional Alentejano
Produtor: Paulo Laureano Vinus
Nota: 4/10

Redoma Rosé 2006

Os vinhos rosés são muitas (tantas) injustiçados. Também não é novidade vir defende-los. Contudo, tenho a dizer que um rosé não é mais do que um vinho que se quer fácil, agradável, refrescante, desconstraído. Confesso que não conheço um rosé que fosse um grande vinho, mas já vários me deram bom prazer.
Este, que aqui vem, é o melhor rosé do Verão e o melhor que me lembro de ter bebido.

Origem: Douro
Produtor: Niepoort
Nota: 6/10

Palácio da Bacalhôa 2003

Este é um vinho absolutamente internacional - o que não é bem uma virtude, mas não é forçosamente um defeito -, que marcha muito bem. É elegante, tem porte nobre, sabe estar à mesa... Só lamento o excesso de pimentão, no nariz e na boca... é o cabernet sauvignon a atacar!...

Origem: Regional Terras do Sado
Produtor: Bacalhôa Vinhos
Nota: 6,5/10

Cortes de Cima Touriga Nacional 2003

Já se sabe que o produtor é sério, mas seriedade não basta. Já se sabe que o produtor é reputado, mas uma opinião contra-maré não manchará a fama. O facto é que acho este vinho pretensioso e caro para o que é. Este vinho é aborrecidíssimo, uma chatice. Mas por que há gente que teima em fazer monovarietais? Que chatice ter de pedir desculpa para não beber um vinho de perfil internacional!... Esta mania, esta moda, esta teima do Novo Mundo é tão cansativa!

Origem: Regional Alentejano
Produtor: Cortes de Cima
Nota: 5,5/10

Cruz Miranda 2001

Há coisas do Diabo! Este vinho dá-me voltas na cabeça. Cada vez que o bebo vem diferente, mas sempre sem nódoa que se lhe aponte. O problema é que o acho melhor... e a «coisa» insiste. Em tempos achei-o merecedor de 6,5/10, mas agora vejo-me forçado a dar-lhe mais.
Ele é madeira, ele é especiarias, ele é tabaco, ele é flores... Um festim.

Origem: Regional Alentejano
Produtor: Teresa Uva Pessanha Barbosa da Cruz Miranda
Nota: 8/10

sexta-feira, setembro 14, 2007

Quinta de Cima

É sempre muito triste quando uma região vinhateira só existe porque um produtor insiste em existir. É ainda mais triste se não houver um produtor privado a criar e seja necessária a intervenção do Estado. Carcavelos é uma curiosidade, já não conta nem consta. Felizmente, é tratado como uma relíquia ou como uma ave em vias de extinção. Este Quinta de Cima, não tem data uma vez que resulta de lotes de vários anos, é rico em caramelo e passas, é muito untuoso e nada saturante.

Origem: Carcavelos
Produtor: Estação Agronómica Nacional
Nota: 8/10

Château Beychevelle Grand Vin 2003

Na boca é muito suave e com fruta madura. No nariz é uma festa de jasmim, com algum couro discreto. Em termos gerais, este vinho é bem feito, mas não não uma revelação. Contudo, há que dizer que não vale os 40 euros que custou ao meu amigo que mo deu a beber.

Origem: Saint-Julien
Produtor: Société Civile Château Beychevelle
Nota: 5,5/10

segunda-feira, agosto 20, 2007

Château La Grave 1988

Um vinho muito equilibrado, muito fino e elegante, a notar-se na boca fruta confitada. Com quase 20 anos ainda aguentará mais alguns... se as rolhas o permitirem, pois já estavam quase a irem-se embora.

Origem: Saint-Emilion
Classificação: Grand Cru
Produtor: Raby Saugeon
Teor alcoólico: 12,5%
Nota: 8/10

segunda-feira, agosto 13, 2007

Inveja nos bolsos

Se não tenho capacidade de apreciar, por que tenho sentidos? Se não tenho dinheiro para apreciar, para que tenho conhecimento? Se não tenho amigos para partilhar, para que tenho eu um Petrus?


Nota: Quem diz Pétrus, diz Château Margaux, diz Château Lafite Rothschild, diz Château Mouton Rothschild, diz Château Latour, diz Châteu Le Pin, diz Château Haut-Brion, diz Chateau d'Yquem... isto só para não sair dos Bordéus.

quarta-feira, agosto 08, 2007

O chá da tarde

São 16h00 e está na hora de tomar chá. Ao contrário da indicação do senso comum, é às 16h00 que se deve tomar o chá. Serve-se primeiro ao próprio e depois as restantes pessoas em ordem ascendente de importância ou cerimónia. (No protocolo oriental não sei se vigoram as mesmas regras de etiqueta).
A descoberta do chá, enquanto bebida, ocorreu por volta de 2730 A.C., reinava na China o Imperador Xen Nung. Em 729 D.C. é referenciado, pela primeira vez, no Japão, no reinado do Imperador Xomu. A primeira menção ao chá feita por europeus aconteceu em 1560 e pela mão dos portugueses.
O primeiro carregamento de chá terá chegado à Europa no começo do século XVII. A entrada na Inglaterra aconteceu por meados desse século e pela mão de Dona Catarina de Bragança, como presente de casamento (e mais terras na Índia) ao seu noivo, que reinou como Carlos II. Desde então, o chá foi aumentado a sua importância e reputação na Grã-Bretanha até se tornar na bebida preferida.
Porém, a história do chá na Europa não se resume a Portugal e Grã-Bretanha. Em 1680, em França, terá sido adicionado, pela primeira vez, o leite. Já o cerimonial é um contributo inglês, tendo as regras sido fixadas pela Duquesa de Bedford em 1820.
A fama e a procura de chá levou a uma corrida dos comerciantes pelo seu abastecimento. Foi o tempo dos clippers, navios velozes que disputavam o fornecimento de chá do ano à Grã-Bretanha.
O Ceilão, actual Sri Lanka, é hoje uma referência produtora desta bebida. O mesmo acontece com a região indiana de Darjeeling, situada no Estado de Bengala Ocidental, no sopé dos Himalaias, e com a de Assam, no extremo oriental daquele país. Contudo, estas terras só conheceram o plantio na década de 30 do século XIX. O Quénia, outra região famosa, tornou-se produtora em 1903.
Tal como acontece com outros bens alimentares, a proveniência é importante. As regiões acima referidas são das mais valorizadas. Porém, tal como nos outros casos, há quem viva da ilusão e do engano. Só para se ter uma ideia, a região de Darjeeling produz anualmente entre 8.000 e 11.000 toneladas de chá, mas estima-se que no mercado mundial sejam transaccionadas 40.000 de chá como tendo dessa proveniência.
O chá vem, sobretudo, da Ásia, onde vigoram os climas tropical e subtropical, moldados pelas monções, propícios à Camelia sinensis. Além do mais, aquele continente tem outra vantagem: abundância de terrenos aráveis em altitude. Porém há também produção na Europa, mas limita-se à região portuguesa dos Açores.
Em chinês existe um caracter para chá. No entanto, não há um só falar, pelo que a palavra tem diversas pronuncias. O certo é que existe uma junção de som «te» e «ch», o que resultou em diferentes usos no Ocidente. Assim, há línguas que adoptaram o primeiro som (inglês, francês, etc) e outras o segundo (português, russo, etc).
O chá não é todo igual, sendo o verde e o preto os mais conhecidos. Mas a estes há que juntar o vermelho, o amarelo, o branco e o oolong. Para todos os chás existem diferentes variedades de Camelia sinensis. Os processos de produção variam de tipo para tipo. O processo de produção do chá amarelo assemelha-se ao verde, mas regista uma secagem das folhas mais lenta. O chá verde é assim designado devido à ligeira oxidação das folhas. O chá preto é o que apresenta maior oxidação. O oolong conta com uma oxidação intermédia entre o verde e o preto. O vermelho apresenta uma oxidação próxima do preto e obtém-se a partir de folhas fermentadas. O chá branco obtém-se a partir de folhas jovens e sem a oxidação das mesmas.
Quanto a preferências, cada um tem a sua. Por regra prefiro o verde e, depois, o preto... uma certa falta de excentricidade.

Nota: Pintura de Jean-Baptiste Chardin.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Greatwall

Consta que os chineses andam com vontade de apostar no vinho e que têm feito notáveis progressos. Contudo, o vinho lá é um produto elitista e a referência é a França. Trouxeram-me um cabernet (sem mais indicação sobre qual será, mas provavelmente sauvignon) da China. A garrafa não apresenta data, coisa que estranhei, uma vez que o rótulo era preciosista quanto à casta, escrita em caracteres orientais e latinos. O vinho provou-se desenchabido e desinteressante, sem aroma que lhe valesse. Uma miséria! Assim, não vão lá! E será que os elitistas enófilos chineses, cheios de manias e preconceitos de admiração face aos vinhos franceses tragam bem esta mistela? Ou será que o conhecimento vínico se resume ao rótulo, proveniência e preço? Constou-me que sim. Deixem estar!...

Origem: Shacheng (?)- China
Produtor: Greatwall Brand
Teor alcoólico: 11,5%
Nota: 2/10

Feteasca Neagra

Trouxeram-me este vinho como curiosidade. Ao que parece anda bem cotado lá para os lados de Bucareste (foi o que me disseram e vendo o peixe pelo preço que o comprei). Estranhei não ter data, facto que me pôs o pé atrás. Só posso dizer é que se este vinho é, de facto, bem cotado na Roménia, por lá o gosto e o conhecimento por vinho é rasteiro. A beberagem até levou uma adição de açúcar. É uma xaropada doce e pior que muitas sangrias. Blheque! :-p

Origem: Moldávia romena
Produtor: Bucium
Teor alcoólico: 10,5%
Nota: 1/10

quinta-feira, agosto 02, 2007

Catarina 2005

É refrescante, é frutadinho (sem exagero)... é o que apetece num dia quente de Verão.

Origem: Regional Terras do Sado
Produtor: Bacalhôa Vinhos
Teor alcoólico: 13%
Nota: 5/10

terça-feira, julho 03, 2007

Amêijoas à Bulhão Pato

O prato não deve a autoria ao poeta, mas antes ao tasqueiro que lhas dava a comer. O autor de «Flores Agrestes» apreciava tanto as amêijoas da tasca que o cozinheiro as baptizou em sua memória.
Não se trata duma receita difícil nem contém ingredientes raros: amêijoas, azeite, alho e coentros. Para quem gostar pode espremer-se um pouco de limão, mas já na mesa.
Apesar de estar muito divulgada, esta receita não é uma receita popular. Está escrita. Obedece a uma regra. Porém, esta é dos mais abastardados pratos portugueses. Nele lhe põem vinho, mostarda, margarina e outros ingredientes que estão longe de melhorarem o original. Ainda agora, numa importante revista dada aos prazeres da mesa, lá vinham disparates no receituário.
A simplicidade é uma meta difícil de alcançar. A perfeição também. Muitas vezes uma e outra são sinónimos: é o caso das amêijoas à Bulhão Pato.

sábado, junho 23, 2007

Babits Tokaji Aszú 5 puttonyos 2000

Neste Tokay a linha força está na fruta. Primeiramente impressionou-me mais na boca do que no nariz, mas o tempo veio alterar essa percepção. Aroma e paladar dominados pelo pêssego com algumas notas de manga. O sabor tornou-se um pouco enjoativo. Por mim prefiro a linha mais tradicional dos Tokay.

Origem: Tokay - Hungria
Produtor: Babits
Nota: 6/10

Oremus Tokaji Aszú 5 puttonyos 1995

Este vinho pareceu-me na boca tão bom quanto no nariz. E no nariz tão agradável quanto belo na vista. Dourado como o âmbar e de aroma a lembrar confeitaria, muito complexo, onde sobressaía o mel. Na boca manteve-se a complexidade: muito gordo, guloso, a lembrar mel, fruta confitada, com mineralidade, alguma acidez. Uma festa.

Origem: Tokay - Hungria
Produtor: Bodegas Vega Sicilia
Teor alcoólico: 11,5%
Nota: 8/10

Rupert & Rothschild Vignerons Classique 2004

É um vinho com muitas notas vegetais. Nota-se lá suavemente o cabernet sauvignon. Vegetal é o termo que melhor define este vinho. Mas encontram-se também em doses macias e cuidadas flores e frutas. Tudo muito discreto e bem medido. Os 15% de álcool passam totalmente ao lado, o vinho está equilibrado. Menos positivo será alguma indiferenciação: não há milagres! Este vinho fez-se com as castas cabernet sauvignon e merlot, por isso tem um perfil muito internacional. Está belo de se beber.

Origem: Western Cape - África do Sul
Produtor: Anthonij Rupert & Benjamin Rothschild
Teor alcoólico: 15%
Nota: 6,5/10

quinta-feira, junho 21, 2007

Vinho e azeite kasher

No final do século XV e começo do século XVI, durante o reinado de Dom Manuel I, os judeus foram alvo de uma forte perseguição em Portugal, muitas famílias exilaram-se e outras esconderam-se. Fingindo-se passar por cristãos, mantiveram a sua crença em segredo, como os cripto-judeus de Belmonte.
Os alimentos permitidos aos judeus designam-se por kosher, ou kasher, segundo a fonética dos judeus ibéricos, e a sua concepção tem de ser supervisionada por um rabino, que zela pelo cumprimento dos preceitos e da higiene.
Afirma o rabino Elisha Salas: «Temos de supervisionar todo o tipo de alimentos. Sabemos que somos o que comemos. Portanto, o povo judeu sempre se preocupou com a comida que come e estivemos sempre preocupados com o que diz a Torá, com o que diz a nossa lei judaica, com o que dizem os rabinos no que respeita ao processo de fabrico, e de acordo com isso temos de supervisionar o produto que estamos a fazer».
500 anos depois das perseguições, os sefarditas podem provar azeite e vinho portugueses respeitadores dos preceitos hebraicos. A Penazeites, uma empresa de Penamacor com a actividade virada para a exportação, sobretudo para o Brasil, aceitou o desafio de lançar o primeiro azeite Kasher desde há meio milénio. A comunidade judaica e a diáspora portuguesa são os clientes esperados.
A supervisão do rabino não estorva o trabalho normal da empresa, embora o armazenamento tenha diferenças face ao restante. O azeite é guardado em cubas seladas e assinadas pelo rabino, a garantia de que nada de impuro ou impróprio teve contacto com o óleo.
Mais complicado é o fabrico de vinho, uma vez que se trata de uma bebida sagrada e presente em todas as cerimónias religiosas. A partir dos momento em que as uvas se transformam em mosto, apenas as mãos dos judeus podem intervir. «O vinho desde o princípio, desde que chegam as uvas à adega até que o produto final esteja terminado e engarrafado, tem de ser feito por judeus, exclusivamente por judeus. Uma pessoa não judia não pode tocar no vinho, não pode mexer num interruptor, não pode mexer numa torneira ... nada! Não pode agarrar numa mangueira e levá-la. Não pode fazer nada, porque o produto é extremamente exigente, porque é um produto religioso. Em todos os momentos religiosos tomamos vinho e o vinho para ser permitido ao povo judeu tem de ser feito completamente por judeus em todo o processo» - diz Elisha Salas.
As perseguições religiosas levaram muitas famílias para a raia portuguesa, de Castelo de Vide a Mirandela, além da célebre Belmonte. No brasão da Covilhã, a estrela de seis pontas denuncia a presença judaica, mas a comunidade é uma minoria e fabricar vinho Kasher torna-se complicado. «A mão-de-obra para fabricar vinho é escassa em Portugal. É muito difícil conseguir pessoas para trabalhar connosco na fabricação do vinho. Isso faz com que o produto seja escasso e difícil de fabricar. A verdade é que é muito complicado, muito difícil» - refere o rabino.
Até ter sido expulsa, a família Abravanel, que se diz descendente do rei David, estava muito próxima da Coroa portuguesa. 500 anos mais tarde, um Abravanel aliou-se à Adega da Covilhã no fabrico do vinho Kasher. A Adega da Covilhã criou duas marcas, uma mais destinada ao mercado nacional, o Terras de Belmonte, e outro mais ao gosto internacional , o Sepharad, ou seja Ibéria.
Mas, os vinhos kasher da Covilhã não se destinam apenas a judeus e são MEVUSHAL, ou seja, podem ser servidos por gentios, o que implica uma pasteurização. Mas a caminho vêm garrafeiras, que só podem ser servidos por israelitas.
O Terras de Belmonte e o Sepharad são mais do que vinho, mostram o sabor de Portugal e são também a chave que está a abrir as portas da exportação à Adega da Covilhã. Depois do azeite e do vinho kasher, a comunidade Shavei Israel quer produzir mais especialidades portuguesas que ajudem quem quer seguir à risca os preceitos judaicos.

Nota: Texto adaptado da reportagem que escrevi para o programa «Da Terra Ao Mar» da RTP 2.

Casa Menéres - Jerusalém de Romeu

Jerusalém de Romeu quase parou no tempo e fixou os encantos de outrora. Quem a vê diz que por ali nada se passou. Na que foi outrora uma modesta pousada junto à estrada que ligava o Porto a Bragança e à fronteira guarda-se a memória de um homem que se enamorou pela terra. Desde então mantém-se o amor entre uma família e a pequena aldeia.
Em 1874 as viagens obrigavam a demoras e transtornos. Ainda assim, Clemente Menéres conheceu o mundo e de Vila da Feira partiu rumo ao Brasil, Japão e Médio Oriente. Mas foi pela pequena aldeia transmontana que este Negociante de diversos produtos se enamorou, quando procurava montados para extrair cortiça.
130 anos passados desde que Clemente Menéres chegou à Jerusalém transmontana, que a Quinta do Romeu se mantém na mesma família. É talvez a maior propriedade de Trás-os-Montes, com quase seis mil hectares, e conserva-se fiel às suas produções de cortiça, vinho e azeite.
A Quinta do Romeu dedica-se apenas a produções biológicas, para que a natureza não seja agredida e se comprometa um recurso que não é de uma só geração. E mesmo sem as ajudas químicas, o negócio rende. Toda a Quinta do Romeu se articula, entre as suas actividades tradicionais e a natureza, para que não se estrague o futuro.
Mas nem tudo é tradição ou passado em Romeu. O problema da poluição das águas ruças dos lagares está ultrapassado. Não há desperdícios, tudo é reaproveitado.
A lavoura não é tudo em Jerusalém. Quatro gerações de Menéres deixaram marcas e objectos, reunidos no Museu de Curiosidades. Uma casa camponesa acolhe automóveis e grafonolas, aparelhos de música, câmaras fotográficas, fotografias, bandeiras, recordações e conhecimento…
Há também uma loja. Mas fora dos campos, o símbolo da aldeia é a Maria Rita, evocação da anfitriã de Clemente Menéres. Onde este outrora pernoitou há hoje um restaurante típico, no sentido de autêntico.
As refeições acompanham-se com os vinhos da casa. O tinto chama-se Romeu, de sabor jovem e intenso. E o branco, fresco e cítrico, não podia deixar de ser Julieta. As duas personagens de Shakespear ilustram a paixão de uma família por uma terra.

Nota: Texto adaptado da reportagem que escrevi para o programa «Da Terra Ao Mar» da RTP 2.

Pêra rocha - fruta para variar

A pêra rocha é uma caso de sucesso da agricultura portuguesa… representa mais de 90 mil milhões de euros e é o produto horto-frutícola mais exportado. Esta variedade tipicamente portuguesa é a mais consumida entre nós. Uma preferência manifestada desde que foi descoberta em meados do século XIX.
Consta que um tal senhor Rocha, de Sintra, tinha umas pereiras que davam frutos muito gostosos e insistia em dá-los a provar e em espalhar descendência das suas árvores. Com o tempo, estas pereiras espalharam-se pelo país… 95% das pêras portuguesas são rocha, o que demonstra bem o quanto é apreciada. O seu sabor tem vindo a deliciar também os estrangeiros. Os britânicos tomaram-lhe o gosto há menos de vinte anos e desde então nunca mais pararam de a trincar.
A pêra rocha dá-se em todo o território nacional, mas é no Oeste onde tem a sua zona mais produtiva. A grande qualidade e a especificidade foi reconhecida com a Designação de Origem Protegida, o que tem aberto as portas a mais mercados.
Os produtores do Oeste organizaram-se e as estruturas adaptaram-se para responder aos desafios da exportação. A região apostou e agora colhe o fruto do esforço. Porém, manter mercados obriga a um trabalho contínuo e a um grande cuidado com a qualidade.
O mercado nem sempre é justo e alguns frutos muitas não encontravam comprador. Os produtores do Oeste tiraram proveito das regras da sociedade de consumo e … «inventaram» uma forma de escoarem as peças mais pequenas.
E se em Londres as crianças levam perinhas rocha para a escola, na Bélgica a moda são os frutos ainda mais pequenos. Os usos das perinhas podem ser vários, porque diferentes são também os paladares dos povos. Por lá fazem entram em sofisticados pratos. Cada mercado externo tem as suas exigências, mas, onde chegou, a pêra rocha foi eleita como produto de excelência.

Nota: Texto adaptado da reportagem que escrevi para o programa «Da Terra Ao Mar» da RTP 2.

A casa Ramos Pinto

O vinho do Porto é habitualmente associado ao comércio com a Inglaterra, mas nem todas as casas exportadoras fizeram fortuna a vender para esse mercado. No século XIX, o Brasil assumiu-se como um importante comprador e muito por mérito de Adriano Ramos Pinto, que chegou a ser responsável por metade das vendas portuguesas de vinho na América do Sul.
No século XIX, as empresas exportadoras de Vinho do Porto não comercializavam apenas néctares requintados. Eram sociedades de import-export de diversas mercadorias e a Ramos Pinto não era diferente das concorrentes.
Adriano Ramos Pinto era um artista e um homem culto. Com uma sensibilidade diferente, a sua firma assumiu uma postura distinta da tradicional das empresas do Vinho do Porto. O fundador desta casa viveu à frente do seu tempo na abordagem do mercado.
A vida da empresa não parou nem ficou num mesmo patamar. Um grande salto foi dado por José Ramos Pinto Rosas, que revolucionou a viticultura duriense com a ajuda do seu sobrinho, hoje administrador da casa. Criaram uma quinta de raíz e seleccionaram as castas. Plantaram 150 hectares com cinco melhores variedades e avançaram para o vinho de mesa.
A quinta de Ervamoira é perfeita: Diversa nas altitudes, nas exposições solares e nas proximidades do rio. A vinha aqui não está em socalcos, foi posta ao alto, porque, no conceito duriense, é plana. E é tão quente que a vindima é feita em Agosto.
Criar vinhos do Porto e do Douro coloca desafios diferentes, porque são díspares os produtos que se pretendem conseguir. A enologia é uma ciência de equações com muitas variáveis, um ofício de técnica aprimorada, de mão certeira e precisa... é uma arte no que respeita a sensibilidade e intuição.
A Ramos Pinto está hoje ligada a um outro grande vinho: o champanhe. A casa Roederer tomou a empresa, mas entrou por convite. Um investidor que foi escolhido pelas semelhanças na relação com a vinha e no cuidado na feitura das especialidades.
A Quinta da Ervamoira, perto de Foz Côa, é a grande obra da casa Ramos Pinto. É resultado da inspiração, conhecimento e trabalho de José Ramos Pinto Rosas, que procurou arduamente a localização ideal. Deu com a sua quinta perfeita escondida nos rendilhados montanhosos, ainda hoje os camiões que levam as uvas para o lagar demoram duas horas para fazerem os 20 quilómetros que distam Ervamoira da Quinta dos Bons Ares.
Quando encontrou a eleita, a propriedade de 200 hectares não conhecia as vides, mas um campo de cereais. Era ainda mais um fim do mundo. O escritor Christian Seguin descobriu esse momento: «o caminho desdobrava-se em pegas azuis, chascos divertidos e inconstantes vespas. Apressava-se, sem saber, se o seu encantamento se devia à mistura de esteva, giesta e do odor da terra, ou se àquela voz que lhe segredava: “encontraste, José. É aqui”».
Na década de 90, a Ervamoira esteve ameaçada. As necessidades energéticas ditavam que se construísse uma barragem. Todas as vinhas e a memória das experiências que ali se fizeram estiveram condenadas a ficar submersas por muitos metros de água. A cultura e o património aliaram-se e as gravuras que não sabiam nadar acabaram por salvar o vinho de Ervamoira...
Noutros tempos, muito distantes, por esse ermo de encantos vinhateiros andaram homens que deixaram a sua marca. Ervamoira tem hoje um pequeno museu, onde não foi esquecida uma homenagem a José Ramos Pinto Rosas, uma trave-mestra da casa, porque o homem foi a alma da empresa.

Nota: Texto adaptado da reportagem que escrevi para o programa «Da Terra Ao Mar» da RTP 2.

Dois vinhos, um só vale

Se o homem consegue milagres, um deles fica em Portugal. O Douro era indomável, feito de cascatas, rápidos e outras traições à navegação. Os portugueses fizeram dele estrada de comércio e domesticaram-no. A íngreme moldura serrana do rio foi esculpida para que as encostas se tornassem produtivas.
A força deste milagre chama-se vinho do Porto. Foi a riqueza que gera que fez com que as encostas fossem escavadas em socalcos... com os primeiros patamares a surgirem no final do século XVIII.
A região duriense foi a primeira região do mundo a ser demarcada . Mas o que importa mesmo são os sabores e os aromas ímpares.
Os ingleses apreciaram este vinho desde que o provaram e por muitos anos foram os seus grandes consumidores, e os homens do Douro fizeram-no ao gosto dos fregueses. Mais tarde, o Brasil tornou-se noutro grande mercado. Hoje este vinho é universal e exportado para todo o mundo.
O vinho do Porto não foi sempre igual... até ao ano em que uma colheita se tornou numa referência. Aconteceu em 1820, segundo João Nicolau de Almeida, responsável da casa Ramos Pinto.
Por ser um produto nascido para a exportação, o vinho do Porto é quase desconhecido dos portugueses, que consomem, sobretudo, os produtos de menor qualidade.
O vinho do Porto tem uma elevada percentagem de álcool. O limite mínimo para os brancos é 16,5%, enquanto para os tintos é de 19%. Os brancos dividem-se em cinco categorias de doçura, do muito-doce ao extra-seco.
Os vinhos do Porto correntes são resultado da mistura de diversas colheitas, são os chamados vinhos de lote: é o caso dos brancos, dos ruby e dos tawnies. Os ruby são avermelhados, porque envelhecem menos tempo em madeira do que os tawnies, que têm uma cor aloirada. Alguns tawnies podem indicar 10, 20, 30 ou 40 anos, ou seja a idade média dos vinhos que compõe em seu lote.
Os melhores vinhos do Porto passam mais anos a envelhecer e são provenientes de uma só vindima, daí designarem-se por vintage, que significa colheita em inglês. Dentro dos vintage existem os garrafeira, que envelhecem em vidro, e os LBV, ou late bottle vintage, colheita engarrafada tardiamente. Quando a produção é originária de uma só quinta, esta pode vir referida no rótulo.
Difícil? O vinho do Porto é assim mesmo, já no século XIX se dizia que há tantos tipos de vinho do Porto quanto os tons das fitas à venda num retroseiro...
O vinho do Porto tem associada uma imagem de glamour, é o que emana do prestígio das suas caves e do charme das suas quintas fidalgas. Mas a realidade é diferente...
A vinha total ocupa quase 39 mil hectares e o grosso da produção vem de pequenas parcelas... a propriedade média tem pouco mais de um hectar. A produtividade por hectar é de 30 hectolitros ou 4100 quilos.
O Douro vinhateiro espalha-se por quatro distritos e divide-se nas subregiões do Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior. É uma área variada, com diferentes exposições solares e altitudes que vão dos 60 aos mil metros.
Embora na actualidade existam cinco castas preferenciais, nas vinhas velhas do Douro há perto de uma centena de variedades. O solo de xisto é o traço de união e agente fundamental para o Vinho do Porto. É desta imensidão de factores que resulta a grande complexidade dos vinhos. Até 1986, o envelhecimento fazia-se obrigatoriamente em Gaia, onde vinha respirar ar mais húmido. A montante estavam as quintas e junto ao Porto as caves dos exportadores.
Hoje, o vinho já não desce o rio em barcos rabelos, que outrora demoravam três dias e três noites para fazer os 150 quilómetros que distam entre o Pinhão e a ribeira de Gaia. As embarcações são agora património cultura das duas cidades irmãs da foz do Douro.
Mas o vinho do Porto continua a ser tradição e ritual, e sinónimo de acontecimento. Num edifício portuense com clara traça britânica do século XVIII fica a Feitoria Inglesa. De grémio comercial tornou-se num verdadeiro clube, que hoje ainda mantém os almoços de quarta-feira.
Ao vinho do Porto pode também chamar-se remédio. Nos trópicos bebia-se o Quinado: o Porto com quinino era usado contra a malária. Mas a sua maior eficácia sente-se no coração, nos afectos...
Tim Bergqvist, da Quinta de La Rosa, lembra a vez em que o seu avô, o exportador Alberto Feuerheerd, juntou à mesa dois amigos desavindos... O repasto terminou com a tradicional garrafa de vintage. Quando se esvaziou eram novamente todos amigos. Um ano mais tarde, os amigos outrora desavindos ofereceram ao apaziguador uma garrafa em cristal da Irlanda, ainda hoje na Quinta de La Rosa, com capacidade para três garrafas de Porto, uma por cada um dos amigos. «O vinho do Porto cura tudo menos a morte». O Porto é um remédio santo ou um vinho imortal.
Douro é uma palavra céltica de significado desconhecido, mas com um vinho de fama mundial e um outro a fazer-se de excelência, bem se pode dizer que é de ouro este vale e este rio.
Há quem diga que todos os vinhos seriam do Porto se pudessem ... mas talvez não todos. No mesmo vale do Douro nasce também num vinho natural, um vinho de pasto que em tempos lutou pela existência. O Porto e o Douro são dois irmãos separados à nascença.
O vinho do Douro renasceu, mas até há uns anos poucas casas se atreviam a avançar. O mosto das uvas que não gerava vinho do Porto ia quase todo para destilação. Mas uma revolução soprou pelo vale, multiplicando os investimentos e as ousadias. Os lavradores do Douro já não têm receio de dar hoje a beber os seus vinhos de mesa. É um verdadeiro regresso às origens.
O vinho português nem sempre é bem visto fora de portas. Por isso, os lavradores durienses sabem que o futuro passa pela qualidade e por muito trabalho, e há a esperança de que o Porto ajude o Douro no estrangeiro, com a sua notoriedade e a fama.
A região duriense é talvez a mais aristocrática das regiões vinhateiras portuguesas. Não apenas por ser o berço do Porto, mas pela massa crítica que se dedica às vinhas. É uma terra de visionários, de gente à frente do seu tempo, desde a célebre Ferreirinha ao barão de Forrester, contrário à aguardentação dos vinhos. Mais recentemente de Fernando Nicolau de Almeida, criador do Barca Velha, ou José Ramos Pinto Rosas, que modernizou a viticultura duriense.
O vale do Douro é um encanto para os olhos. A natureza tem ali uma força diferente e a acção do homem é de espanto. Contudo, fazer vinho nestes fortes declives tem custos elevados. Num mundo em que a concorrência é global, a sabedoria e a inteligência têm de trabalhar juntas para que haja futuro.
Quem gosta de bom vinho não passa sem um Porto e os que provam um bom Douro não lhe ficam indiferentes. A região é grande, diversa e generosa o suficiente para nela caberem dois vinhos de excelência e sem um ensombrar a vida do outro.
Na região há mais do que tradição. Uma nova geração chegou às vinhas, depois de ter visto o mundo. É sangue novo que traz ideias e dá atenção à qualidade e à personalidade... É uma gente que quer mudanças e aproveitar o que de melhor outras gerações deram ao Douro.
O tempo passa em todo o lado, mas no Douro o futuro nunca se esquece do passado.

Nota: Texto adaptado da reportagem que escrevi para o programa «Da Terra Ao Mar» da RTP 2.

A madeira e o vinho - uma carta do Brasil

Nada obriga a um vinho a ir à madeira. Aliás, os avanços da investigação apuraram que a madeira pode ir ao vinho que os resultados são muito aproximados: os chamados chips ou aparas são há já bastante tempo utilizadas nos designados países do Novo Mundo (e também do Velho) e autorizadas desde cerca de meados de 2006 na União Europeia. Escreveu-me, para o email, um leitor brasileiro dizendo que no Chile está a ser utilizado pó de madeira (sachet). Não sei até que ponto esta informação é absoluta, sendo que, a avaliar pelas reticências mostradas face às aparas, duvido que esta prática venha proximamente a ser autorizada no espaço comunitário.
Mas se nada obriga um vinho a ter madeira, nada obriga a não ter. Por regra, os tintos estagiam com madeira e os brancos variam. O tipo de madeira, o seu uso e o tempo de estagio variam. É tudo uma questão de gosto, de estilo, de perfil: as opções são do enólogo. Depois, em última análise, do consumidor e do mercado. O mundo dos vinhos não está imune às modas, pelo que o consensual hoje pode amanhã não ser.
Escreveu-me esse leitor brasileiro queixando-se de que os vinhos chilenos andam demasiado carregados de madeira: «O Chile está abusando do carvalho em seus vinhos, parece que esta prática está chegando em Portugal. Meu limite para a madeira é pequeno, ou melhor, acho necessário, porém com limite».
Há madeira e madeira, e gostos e gostos. Tudo tem de estar em equilíbrio e harmonia. É aí que está a dificuldade, até porque equilíbrio e harmonia não são mensuráveis. Como no apelo havia uma referência a Portugal e para poder perceber melhor o ponto de vista do leitor, solicitei que me exemplificasse. A resposta veio. Posso assegurar que é um vinho de perfil internacional e duma casa séria e competente.
Contudo, isto não quer dizer que o leitor não tenha razão genérica no apelo que faz, e vinhos com excesso de madeira não serão bons vinhos. Há por cá vinhos abusados na madeira... Só para dar um exemplo: Uma certa vez aproximei o copo e a coisa tresandava a baunilha, parecia que lhe tinham deitado um aditivo, estava intragável.

quarta-feira, junho 20, 2007

Tokay e provai... e não querereis outra coisa!

Até à divulgação do Vinho do Porto, o Tokay foi o grande vinho da realeza. Este néctar branco pode ter sido destronado, mas não perdeu fama nem prestígio. Aliás, há mais do que um rei a reinar na terra!













Uma garrafa de vinho Tokay gerou uma guerra. Por ele, os turcos invadiram a Europa e cercaram Viena... Isto segundo a versão do aventureiro Barão de Münchausen.
O Grande Turco geria o seu império em paz, quando recebeu a visita do aristocrata germânico e a quem serviu o seu melhor Tokay. Mas a reacção ficou-se por um «não está mal». O espanto e a raiva do sultão encontraram consolo numa aposta: Uma garrafa dum Tokay superior, no prazo de uma hora, ou a cabeça do barão, em troca todo o tesouro que um só homem pudesse carregar. Münchausen, um James Bond do final do século XVII, tinha por companheiros, entre outros, os homens mais veloz e mais forte do mundo. Adiante: O tesouro foi todo levado, deixando o perdedor na penúria, ofendido na alma e furibundo, instigando-o a perseguir o seu «007», a entrar pela Europa e pondo-a a ferro e fogo, chegando às portas de Viena.
Este episódio do impagável personagem literário de Rudolph Erich Raspe só aconteceu no cinema, mas traduz a alma do herói fantasioso (que se opõe ao racionalismo do «século das luzes») e a aura mágica e divina de um vinho que nasce diferente... na Hungria e na Eslováquia.



















Verdade e rivalidade
O Tokay, tal como é hoje conhecido, data de meados do século XVI, já os turcos andavam em patifarias pela Europa. A produção não prosperou durante a ocupação otomana, mas muitas das adegas foram criadas nessa época. Em 1683, o rei João III da Polónia salvou Viena do cerco e daí em diante dá-se o recuo das tropas turcas e a expansão da fama do Tokay.
Os romanos introduziram a vinha na Panónia e os eslavos deram-lhe continuidade. A invasão dos tártaros deu cabo das vides, mas estas voltaram com os italianos chamados, por Bela IV, a colonizar a região entre os rios Tisa e Bodrog.
Consta que em 1617 a vindima foi atrasada devido à previsão dum ataque turco, o que levou ao surgimento da botrytis cinerea (podridão nobre), que faz as uvas murchar, a película ficar mais macia e adocica o sabor. Devido a esta lenda, o Tokay reclama ser o mais antigo «colheita tardia», reivindicado também pelo vinho alemão Rheingau (120 anos mais tarde).
Ainda que a data verídica seja outra, talvez o Tokay seja o primeiro «colheita tardia». O registo mais antigo sobre a elaboração do Tokay data de 1630 e em 1655 surgiu o primeiro decreto a regulamentar a vindima, obrigando a escolha, um a um, dos bagos afectados pela podridão nobre, a que chamam «aszú».
Em 1737, um decreto estabeleceu os limites vinhateiros do Tokay e, em 1772, foi divulgada o primeiro sistema de classificação de parcelas do mundo. Ora, isto faz com que hungaros e eslovacos reivindiquem a mais antiga região demarcada do mundo. Isto entra em conflito com a certeza portuguesa. A instituição da Real Companhia das Vinhas do Alto Douro, por ordem do marquês de Pombal, aconteceu em 1756, traduziu-se no terreno, com marcos a assinalar os limites do Douro vinhateiro, coisa que só muito mais tarde aconteceu na Hungria.
As convulsões desencadeadas com a Primeira Guerra Mundial conduziram ao divórcio austro-húngaro, ao surgimento de novos Estados e à divisão da região do Tokay em duas, ficando, contudo, quase toda na Hungria.
A filoxera fez estragos no século XIX e as complicações continuaram na centúria seguinte, com duas guerras mundiais e regimes comunistas na Hungria e Checoslováquia. O Tokay só ressurgiu após o fim da Guerra Fria. Porém, o degelo pôs a nu um problema: o que fazer com um produto valorizado, mas dividido por dois países? A Hungria conseguiu o reconhecimento formal, enquanto a Eslováquia protestava. As negociações de adesão à União Europeia indicaram a solução. Um problema que persiste é o das designações abusivas: França (Tokay da Alsácia), Itália (Tocai), Eslovénia, Austrália e Califórnia.
A queda dos regimes comunistas atraiu o investimento estrangeiro, estimulou o empenho, recuperou a qualidade, o encanto e o prestígio. Resultado: o preço disparou. Para se ter uma ideia, uma garrafa (meio litro) de boa qualidade («aszú 5 puttonyos») custa em Lisboa (coisa difícil de encontrar) 35 euros... sem especulação face a lojas no estrangeiro.

Três copitos
O Tokay faz-se com uvas brancas e tem tonalidades preciosas, entre o ouro e o âmbar. O seu sabor é, por natureza, complexo. Nas produções mais tradicionais, a boca sente maçã caramelizada, caramelo, passas, algum mineral e há quem diga a «alcatrão» (Cruzes! Credo! Haja respeito e pudor!). As novas tecnologias permitem experiências e modas, pelo que os mais audazes conseguem dar a provar tangerina, pêssego, damasco, manga, ananás e notas florais.
Quem leia estas linhas pode pensar que se trata dum vinho xaroposo e pastoso, mas engana-se! É algo entre o amargo e o doce (como aquela canção de Paulo de Carvalho com poema de Ary dos Santos) e tem boa escorrência. Na mesa vai bem com foi-gras e patês, frutos secos, passas, fruta cristalizada, pastelaria e bolo-rei. Ah! E serve-se frio. Muito frio, entre os quatro e os seis graus.
Na verdade, existem três tipos de Tokay. O «szamorodni» («tal como vem») não é um «colheita tardia», não tem a mística dos seus irmãos, mas serve-lhes de base. Depois há os «aszú», escalonados em cinco categorias, e o «eszenzia», que entra numa competição à parte.
Na base está o «aszú 3 puttonyos», que indica que a 80 litros foram adicionadas três cestas de vindimas (20 quilos ou litros) com uvas com fungo, contendo até 9% de açúcar residual. Seguem-se os «aszú 4 puttonyos» (até 12%), «aszú 5 puttonyos» (até 15%), «aszú 6 puttonyos» (até 18%) e o «aszú eszenzia» (mais de 18%).
A «tal» bebida mágica dos reis designa-se, simplesmente, por «eszenzia» e o açúcar residual pode chegar a 70%. A fermentação alcoólica é lentíssima, a longevidade quase eterna e o sabor... desconhecido por seis mil milhões de pessoas... talvez até mais.





















Aforismos Tokantes
Húngaros e eslovacos repetem uma pomposa frase sobre o Tokay saída da boca de Luís XIV de França: «é o rei dos vinhos e o vinho dos reis»! Há, aliás, uma forte relação com a realeza. Houve tempos em que os «eszenzia» (a que atribuíram poderes curativos) eram exclusivo dos monarcas magiares e, mais tarde, dos Habsburgos. Pedro I da Rússia violou as suas próprias leis e importou-o, armazenando-o nas caves do seu palácio de Sampetersburgo. Catarina, a Grande, que lhe sucedeu, não prescindiu da especialidade.
Está provado que alguns dos que saborearam Tokay proferiram algumas das melhores tiradas da humanidade. O mordomo da corte prussiana tranquilizou Frederico II: «Continuai bebendo Tokay, Majestade. As duas primeiras pessoas foram expulsas do Paraíso por comerem, não por beberem».
Por fim – e porque uma frase em latim dá sempre um toque letrado a quem a escreve e seriedade ao que se lê –, um aforismo do papa Bento XIV quando o provou, oferecido pela imperatriz Maria Teresa de Áustria: «Benedicta sit terra, quae te germinavit. Benedicta sit mulier, quae te misit. Benedictus sum, qui te bibo»!*

*(«Bendita a terra em que germinaste. Bendita a mulher que te trouxe.Bendito sou eu que te bebo»)


Nota: Este texto foi, em versão um pouco mais alargada, publicado pela primeira vez na revista Fora de Série (Diário Económico e Semanário Económico) em Outubro de 2005.

quarta-feira, junho 13, 2007

Chá e vinho

Quem não bebeu chá em pequenino não pode, na idade adulta, dissertar sobre o vinho.

segunda-feira, junho 11, 2007

Alentejo domina Portugal

Os vinhos alentejanos (DOC - Denominação de Origem Controlada - e Vinho Regional) continuaram a liderar o mercado português em 2006/7, de acordo com dados da ACNielsen. A quota de mercado na grande distribuição e no canal horeca (hotelaria, restauração e cafetaria) foi de 45,82%, em alta de 3,10 pontos.
Por segmentos, a quota de mercado na grande distribuição foi de 43,54% e no canal horeca representou 47,96%. De acordo com um comunicado da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, «sem os cerca de quatro milhões e trezentos mil litros de vinhos vendidos a mais pelos vinhos alentejanos, o mercado português teria entrado em recessão».
Em valor, a quota de mercado dos vinhos alentejanos representou, na grande distribuição e no canal horeca, 47,48%, o que representa um aumento de 0,40 pontos face ao ano transacto.

sábado, junho 09, 2007

Poeira 2004

A colheita de 2004 ainda precisa de repousar. Os taninos ainda estão bem vivos, mas nota-se que este é um grande vinho. Para mim, a colheita de 2004 é a que mais me agradou, apesar de a ter bebido em condições de juventude. A ver se a pequena produção e os apetites do mercado ainda me guardam algumas garrafas para daqui por uns anos.

Região: Douro
Produtor: Jorge Nobre Moreira
Nota: 9/10

Vertente 2002

É um vinho onde se nota bem a fruta e que é bem fácil de gostar. É fácil e é bom. Simples!

Região: Douro
Produtor: Niepoort
Teor alcoólico: 13%
Nota: 7/10

Maritávora Branco Reserva 2006

Este branco mineral é um achado. Não é só natureza. Há muito saber de quem o faz. E muito prazer de quem o bebe.

Região: Douro
Produtor: Quinta de Maritávora
Nota: 9/10

Geheim Rat «J»

Este é um riesling do Reno onde se notam bem as notas de fruta topical, nomeadamente de manga. É um vinho leve e elegante, que não se torna enjoativo. Vai bem nesta altura do ano.

Região: Rheingau
Produtor: Weingüter Wegeler
Teor alcoólico: 12%
Nota: 6,5/10

sábado, junho 02, 2007

Quinta de Saes Reserva Estágio Prolongado 2005

Belo e rijo vinho. Nariz muito agradável com fruta sem demasia e presença de madeira. Vinho adstringente e com energia. Será muito interessante bebê-lo dentro de um tempo.

Região: Dão
Produtor: Álvaro de Castro
teor alcoólico: 13%
Nota: 7/10

segunda-feira, maio 21, 2007

Pedro e Inês 2003

Um tinto profundo, misterioso, onde se notam ameixas e madeira. Mais do que dizer há que provar.

Região: Dão
Produtor: Dão Sul
Teor alcoólico: 14%
Nota: 8,5/10

sábado, abril 28, 2007

Quinta de Cabriz Reserva 2004

Este tinto está bem melhor no nariz do que na boca. Sinceramente achei-o demasiado festivo e, por conseguinte, cansativo nos aromas, tal a festarola. Bastante floral, sobretudo violetas, alguma fruta madura, baunilha e um toque levezinho a couro. Tudo muito bem, mas com o passar da refeição tornou-se fatigante, sobretudo ar do ramalhete. Na boca é maciozinho e bem mais desinteressante face ao esplendor olfactivo e incaracterístico, com alguma fruta discreta. Todavia não se pense mal, que está um bom pedaço de vinho.

Produtor: Dão Sul
Região: Dão
Nota: 5,5/10

quinta-feira, abril 26, 2007

Cartuxa 2002

Este vinho é um clássico e, como tal, não desilude. É o que é. Encanta quanto baste e evoca paisagens doutro tempo. Merece ser bebido. Tem fruta discreta e madeira nobre. É bem elegante e distinto. Bem equilibrado. Um belo alentejano.

Região: Évora - Alentejo
Produtor: Fundação Eugénio de Almeida
Teor alcoólico: 13,5%
Nota 7/10

sexta-feira, abril 20, 2007

Encostas de Penalva 2004

Comprei este tinto por menos de dois euros. Antes que me argumentem que por esse preço não há bom vinho, respondo que os países do «novo mundo» aí estão para provar o contrário: vinho de grande consumo a preços acessíveis e que nem todo o vinho tem de ser uma preciosidade e caro. Repito que me marimbo para o preço e para as relações de qualidade e preço. Bebo o que gosto e recomendo o que julgo valer a pena.
Neste caso não recomendo. No nariz é um soco de álcool, o que transborda para a boca. É maciosinho e tal, mas nada mais. É desinteressante como uma folha de papel. Não percebo. Nem sequer percebo como foi aprovado como Dão, pois vinho desta qualidade deveria ser chumbado em nome da dignidade e reputação da região. Certamente só porque rende uns cobres em selos de certificação é que é aceite pela entidade que deveria zelar pela qualidade da denominação ou então em nome dum qualquer direito adquirido. Não percebo o que este vinho possa significar para quem o produz, pois não pode encher de orgulho quem o faz. Não percebo como chega ao mercado este vinho e, para mais, com o selo Dão à garupa.

Região: Dão
Produtor: Adega Cooperativa de Penalva do Castelo
Teor alcoólico: 12,5%
Nota: 2/10

domingo, abril 15, 2007

Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas 2004

No nariz há a apontar de negativo um forte odor alcoólico, que esmaga tudo à volta. É preciso esperar antes que os restantes aromas venham à tonam. De resto é bem agradável a suave compota e canela que nele se notam. Na boca, este tinto é potente, com bons taninos, com compota, fruta vermelha discreta, madeira. Belíssimo. Será bom bebê-lo daqui por um par de anos.

Região: Douro
Produtor: Sociedade Agrícola da Quinta do Crasto
Teor alcoólico: 14,5%
Nota: 8/10

domingo, abril 01, 2007

Altas Quintas Crescendo 2005 Tinto

Este tinto pretende ocupar um patamar mais abaixo face aos outros vinhos da casa. Contudo, surpreendeu-me pela positiva. A puxar bem sem se tornar enjoativo, com bom corpo, bela madeira e saudáveis frutos.

Região: Regional Alentejano
Produtor: Altas Quintas
Teor alcoólico: 14%
Nota: 6,5/10

domingo, março 25, 2007

Colares Chitas 1992

Apesar da crise da região, Colares ainda vai dando ao mundo e às bocas belas coisinhas. Têm-me chegado aos ouvidos notícias de que os Colares Chitas não andam grande coisa. Pois talvez não estejam ao nível do que já foram e eu não tenho idade para ter memória, porém este de 1992 achei-o muito bem. Bebi-o relativamente jovem e estava, é claro, capaz de aguentar muitos anos, na boa tradição dos Colares. Bateu-se bem com pratos companeiros tradicionais: bacalhau (pataniscas e pastéis).

Região: Colares
Produtor: António Bernardino Paulo da Silva
Teor alcoólico: 11%
Nota: 7/10

Poeira 2001

A perfeição ou a quase perfeição rouba palavras. Há muito mais a dizer quando se tem alguma coisa a criticar. Deste vinho não há muito a dizer: É fabulástico. Não me apetece dizer mais nada. Seria poluí-lo.

Região: Douro
Produtor: Jorge Nobre Moreira
Teor alcoólico: 13%
Nota: 9/10

sexta-feira, março 23, 2007

Morgado da Canita 2004

Este não é, claramente um grande tinto nem um tinto de excelência. É um tinto que não envergonha, que vai para o mercado a preço cordato. É um dos chamados vinhos de combate, daqueles que vencem pela relação entre a qualidade e o preço, que têm de se apresentar em meias garrafas. Devo dizer que no padrão da gama é dos melhores que tenho tragado. É honesto.

Região: Regional Alentejano
Produtor: Casa Agrícola Santos Jorge
Teor alcoólico: 13,5%
Nota: 4/10

domingo, março 18, 2007

Paço dos Cunhas de Santar Vinha do Contador 2004

Este é um branco que vai bem com peixes pesados e gordos e com carnes menos robustas. Tem um nariz com fruta madura e é bem gordo e macio. Tem classe.

Região: Dão
Produtor: Paço de Santar
Teor alcoólico: 12,5%
Nota: 7/10

La Chablisienne 2005

Não sendo o melhor Chablis até agora tragado, o La Chablisienne mostrou-se todo ele digno da denominação e bem dotado de encanto. Fino, elegante, com os poderes mágicos que se exigem a estes borgonheses.

Região: Chablis
Produtor: SCA La Chablisienne
Teor alcoólico: 12,5%
Nota: 6/10

Terra de Lobos - Castelão Cabernet Sauvignon 2003

É um vinho onde parece que as coisas não batem certo. Será que são as castas que andam à luta? pareceu-me rústico... Ao mesmo tempo entediante e aborrecido. No entanto, há que elogiar a ausência do aroma a pimentão e do sabor impositivo da casta cabernet... porém, a coisa não me pareceu resultar.

Região: Regional Ribatejano
Produtor: Casal Branco
Teor alcoólico: 13,5%
Nota: 3,5/10

Riscal Tempranillo 2004

Casa dos Herderos de Marqués de Riscal é mais conhecida pelos seus vinhos de Rioja e seguidamente de Rueda, mas a empresa estende a sua actividade também a Castela-Leão, donde provém este tinto. Sabe-se que em Espanha várias regiões e muitas adegas se têm voltado para o mercado, mostrando-se atentas às novas tendências, ao perfil dos novos consumidores e às setas indicativas do novo mundo. A Marquès de Riscal tem neste vinho um produto popular e jovem, o que não quer dizer que seja bom ou interessante, mas também não implica que seja mau ou desinteressante. Quanto a mim, acho apenas que não atrasa nem adianta. De facto não é mau, mas também não é interessante.

Região: Castilla y Léon
Produtor: Herderos de Marqués de Riscal
Teor alcoólico: 14%
Nota: 4/10

Campolargo Arinto 2005

É um vinho bem vivo, vegetal e frutado, com apenas a lamentar um certo prolongamento açucarado que deixa na boca. É elegante e merece aplauso.

Região: Bairrada
Produtor: Manuel dos Santos Campolargo
Teor alcoólico: 13,5%
Nota: 7,5/10

Campolargo Bical 2005

Este é um vinho fermentado em madeira e que resulta muito fino e elegante, com uma bela fruta e aroma muito agradável. Não tenho muitas palavras para o definir, sendo que é um dos meus brancos favoritos.

Região: Bairrada
Produtor: Manuel dos Santos Campolargo
Nota: 8,5/10

Frei João Reserva 1991

É uma pena os vinhos da Bairrada andarem tão fora de moda. Na verdade não merecem. A casta baga bem dominada e o estágio em garrafa fazem vinhos únicos. Que belo prazer me deu e que saudades me matou. Estava elegante, em grande forma, mostrando que poderia aguentar-se por mais uns anos.

Região: Bairrada
Produtor: Caves São João
Nota: 6/10

Herdade dos Lagos Syrah Reserva 2004

Serviram-me este vinho, porque (parece) que ando com fama de querer experimentar sempre vinhos diferentes, e este foi-me apresentado como raridade em Lisboa e, mesmo, Portugal, pois ao que parece tem os mercados internacionais como quase único destino. Este faz-se em Mértola e conta com uns potentes 15 graus de álcool. Contudo não se dá por eles, pois servido à temperatura regulamentar nada de embate alcoólico foi notado. No nariz notou-se fruta sem exuberância e toque abaunilhado, na boca é macio e elegante. Para quem o bebe tem lá o sabor dos tintos alentejanos e um forte perfil internacional. Aliás, estas duas características são, para mim, os seus defeitos: não tem nada de novo, é uma citação de sabor e temperamento.

Região: Regional Alentejano
Produtor: Herdade dos Lagos
Teor alcoólico: 15%
Nota: 6/10

Grilos 2005

Por vezes não há nada como o sucesso para estragar um vinho ou uma marca. No Dão existia uma marca que punha no mercado um vinho popular, a preços simpáticos e com uma belíssima qualidade. Tornei-me a adepto e recomendei-o fartamente, comprando-o igualmente. Eu, que me assumo como negligente da relação qualidade e o preço, referi bastamente, a existência dessa relação nesse dito vinho: o Quinta dos Grilos, que, ano após anos, foi habituando os consumidores a uma boa qualidade.
O sucesso da marca ditou que a produção da Quinta dos Grilos fosse insuficiente para abastecer as necessidades. O mercado gostou dos Grilos e as vides da quinta tornaram-se insuficientes para abastecer a procura. Daí que os seus responsáveis tivessem de procurar fora de portas uvas para satisfazer a procura, o que não tem mal algum.
A primeira consequência é que como deixou de ser um vinho de quinta, a marca perdeu o direito a ostentar o vocábulo. Paciência, não é problema. Não tem mal, desde que a qualidade esteja à altura. O problema é que não está. Nâo sequer duvido do rigor do trabalho nem do esforço, mas é óbvia a diferença qualitativa dos Grilos de 2005 para os Quinta dos Grilos de anos anteriores.
Pode argumentar-se que em vinhos populares não é suposto ter-se um padrão de qualidade tão alto ou que a qualidade deste Grilos está ao nível dos seus concorrentes ou até acima. Pode ser, mas o facto é que nos anos anteriores era bem melhor. Está bebível, mas muito abaixo face ao que era. É pena!

Região: Dão
Produtor: Sociedade Agrícola de Casal da Tonda
Teor alcoólico: 13%
Nota: 3/10

Quinta do Monte d'Oiro - Aurius 2002

Muito elegante e um pouco floral. Eu que gosto de vinho bem elegantes, este não me seduziu por aí além. Confesso que não me encaixo bem na boca, certamente pelo excessivo maneirismo e perfil internacional. Não será defeito, mas feitio. Contudo, é um belo vinho!

Região: Regional Estremadura
Produtor: José Bento dos Santos - Quinta do Monte d'Oiro
Teor alcoólico: 14%
Nota: 6/10

Adega Cooperativa de Borba Syrah 2004

Este tinto mostrou-se bem mais agradável enquanto se debateu com comida do que acompanhou o convívio e a conversa. Mal se levantaram os pratos tornou-se fatigado, aborrecido e chato. Tem algumas notas de fruta e de compota sem exuberância. Na boca falta-lhe elegância.

Região: Regional Alentejano
Produtor: Adega Cooperativa de Borba
Teor alcoólico: 14%
Nota: 3,5/10

domingo, março 11, 2007

Calda Bordaleza 2004

Este é um tinto que pouco tem que ver com os velhos bairradas da casta baga. Este faz-se maioritariamente de cabernet sauvignon, depois tem uma boa dose de merlot e petit verdot compõe o ramalhete. É um vinho que, como o nome indica, é feito à moda de Bordéus.
O facto de não ser um tradicionalista e evocar outras paragens não é, à partida, uma virtude, mas também não é uma desvantagem. É o que é. Por mim vale a pena bebê-lo, é bem prazenteiro. O único senão deste vinho é o embate no nariz, que não é simpático. Tudo o mais é elegância.

Região: Bairrada
Produtor: Manuel dos Santos Campolargo
Nota: 7/10

sexta-feira, março 02, 2007

Altano Reserva 2003

Quem me conhece sabe que estou marimbando-me para a relação entre a qualidade e o preço. Pura e simplesmento não quero saber. Das duas uma: ou tenho dinheiro para a coisa que quero e compro-a ou não tenho e esqueço-a. Se a tenho, aprecio-a, desfruto-a e, eventualmente, lamento depois de provada. Se não a tenho, nem quero saber.
Vem toda esta introdução, porque recomendei e recomendarei muitas vezes o Altano a quem aprecia as boas relações entre a qualidade e o preço e também não gosta de gastar muito dinheiro com um vinho. Vem esta introdução a propósito de, por ter gostado do modesto Altano, ter oferecido o Altano Reserva, mesmo arriscando sem provar. Vem toda esta introdução a propósito de tanto assim ser que o meu amigo Paulo Rosendo (parceiro no blogue A Adega - ele vai perdoar-me... não sei se os amigos me perdoarão) me ter oferecido o Altano Reserva.
Ora que tal é este Altano Reserva 2003? No nariz é vegetal com uma leve nota frutada... num primeiro embate é tascoso, até vem um certo golpe alcoólico, que é desnecessário. Na boca é uma desilusão. É chatíssimo! É aborrecidíssimo, bocejante, entediante.
Garanto que é inversamente proporcional ao irmão mais modesto. Enquanto o singelo Altano merece todos os poucos euros que se paga por ele, este não vale a diferença. Nem só pela relação entre a qualidade e o preço. Este deveria ser mais barato do que o outro.

Região: Douro
Produtor: Symington Family Estates
Teor alcoólico: 13,5%
Nota: 2,5/10

quinta-feira, março 01, 2007

Sinal Vermelho

Rua das Gáveas, 89 (Bairro Alto)
Telefone: 21 346 12 52

Das muitas vezes que ali fui vou apenas narrar a minha última incursão, porque é ilustrativa na qualidade do serviço e dos pratos.
O Sinal Vermelho é um restaurante popular, de gastronomia portuguesa, sem armar ao pingarelho e sem espalhafatos desnecessários. A casa é limpa e, felizmente, tem a decência de ter a cozinha resguardada, por forma que ninguém sai a cheirar a comida. O serviço sempre foi correcto e atento. A decoração é popular, com a sala decorada a azulejos a meia parede; não é um espanto, antes pelo contrário. Paga a conta, o cliente não se sente abusado e tem a barriga e a gula satisfeita. E como popular não significa alarve, ali não há a moda de se pôr uma travessa frente ao cliente a fazer de prato. Um prato continua a ser um objecto redondo.
Nesta minha última vez vieram uns filetes de chocos panados, que estavam muito frescos e saboros, acompanhados com arroz de feijão, que poderia estar mais saboroso. A culpa está na escolha do arroz. Aqui caiu-se no arroz agulha, que se presta pouco à gastronomia portuguesa e pouco dado a absorver os sabores. Este é pois um aspecto a modificar.
Depois veio rim, que é um prato de risco! Ou se sabe fazer ou o comensal está a comer análises à urina. A prova foi mais do que ultrapassada. Vinte valores. Os rins vieram com ovos mexidos, arroz e couve. Aqui só se lamentou o arroz, pela mesma razão e que desta feita acresceu estar encruado.
Quanto ao vinho há a dizer coisas boas e uma menos boa. A negativa é o costume: o preço. As boas são a variedade e a presença de uma escolha qualitativa. Há uma oferta de brancos melhor do que é hábito em restaurantes deste patamar e uma gama de tintos de qualidade mais vasta e a preços mais simpáticos também de referenciar. Quem quiser beber um bom vinho consegue encontrá-lo e a preço relativamente acessível. Ou seja, os vinhos mais baratos estão puxados para cima, enquanto os melhores não estão assim tão encarecidos, o que pode fazer pender a escolha para os mais nobres.
Uma refeição com couvert, prato, vinho, sobremesa e café situa-se entre os 25 e os 30 euros. Dadas as circunstâncias e tendo em conta concorrentes do mesmo patamar, parece-me que o Sinal Vermelho é uma escolha absolutamente acertada.

Nota: Ora depois de eu ter escrito este texto a loiça da casa foi mudada e, lamentavelmente, foi adoptada para serventia as malditas travessas em vez de pratos. Há maus hábitos que se pegam!

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Invejas vínicas

Volta e meia tropeço em leituras ou discursos das invejas vitivinícolas portuguesas reboliça-me o espírito. Não devia, porque não sou produtor, mas cansa-me a choradeira de quem só olha para o sucesso dos outros em vez de arrumar a casa.
Quando o vinho não se vende e os anos passam e a decadência se mantém há três opções a tomar: abandonar o negócio, deixar tudo na mesma até que o mercado venha hipoteticamente a dar a volta ou mudar alguma coisa e ir ao encontro dos consumidores. Entre estas opções há zonas de charneira, de diferentes batimentos de luz, que permitem soluções várias.
Cada uma destas posturas é revestida por discursos: a culpa ou o mérito está nos próprios, a culpa ou o mérito está nos outros ou a culpa e o mérito trabalham-se porque estão em nos próprios e em factores exógenos. O discurso da inveja tende a pôr a culpa apenas nos outros.
Parece-me claro que é nítido para toda a gente que o Alentejo é a região vitivinícola de maior sucesso em Portugal. Goste-se ou não do perfil genérico dos seus vinhos. Os alentejanos têm batalhado pelo sucesso e têm, felizmente para eles, conseguido o reconhecimento do mercado. Há algum mal nisto? Sabe-se também que o Douro está irrequieto e que, pelo menos, para os enófilos há um forte reconhecimento do trabalho ali desenvolvido. Haverá algum mal nisso?
Isto vem a propósito de ler e ouvir comentários depreciativos sobre o gosto do mercado por vinhos mais novos, uma tendência que tem prejudicado produtores de Denominações de Origem Controlada onde o vinho necessita de espera. Bem, o lamento é legítimo, o tom da choradeira e o permanente queixume é que se tornam intoleráveis: Façam-se à vida.
Façam-se à vida, porque o mundo não pára! Façam-se à vida, porque há uma falsa questão no lamento choroso. Numa sociedade de consumo uma dose grande do sucesso passa pela promoção, divulgação e publicitação dos produtos. Não é, por isso, líquido que o sucesso dos vinhos do Alentejo e do Douro (dou estas duas designações porque são as comummente alvo dos ataques) seja apenas por serem novos e fáceis de beber.
Acresce que em todas as regiões existem os chamados vinhos de combate, onde o factor preço é determinante, que são os de grande consumo. Será que o consumidor que está mais atento ao preço vai ligar assim tanto à proveniência? Se em todas as regiões há vinhos de grande consumo refira-se o preço médio das do hectolitro por região plano, por ordem crescente: Beiras (2,31 tinto e 1,79 branco), Estremadura (2,66 tinto e 2,16 branco), Trás-os-Montes (2,59 tinto e 2,17 branco), Ribatejo (3,11 tinto e 2,50 branco), Península de Setúbal (3,17 tinto e 2,50 branco) e Alentejo (6,67 tinto e 4,17 branco). O preço médio no continente é de 2,90 para o tinto e 2,35 para o branco.
Estes números deviam fazer corar de vergonha quem faz o discurso da inveja. Ora, os alentejanos mesmo com o preço médio da matéria-prima mais caro conseguem fazer vinho a preço competitivo. Por outro lado, o Douro (incluído em Trás-os-Montes) tem sucesso com valores abaixo da média. Portanto, os produtores durienses sobrevivem mesmo em viticultura de montanha. É óbvio só o preço da matéria-prima faz parte do custo, mas entre essas vantagens e desvantagens estão as regiões em pé de igualdade. É claro que nem só preço pesa na escolha do consumidor, mas é para ultrapassar as desvantagens que é preciso trabalhar e não choramingar invejas.
Façam-se à vida em vez de olhar com invejas para o sucesso dos outros, de culpar os jornalistas pela mudança de paradigma do gosto dos consumidores e de julgar os consumidores e os enófilos como acríticos e acéfalos. A atitude de nada fazer é idêntica à da dança da chuva ou a de ficar sentado à espera que o mundo dê a volta e venha ter connosco.
Não se trata de deixar de fazer vinho como querem ou como sempre fizeram, mas de o saber vender. Em vez de ficarem sentados à espera, apenas com um cartaz à porta da adega, talvez seja melhor mexerem-se.Um exemplo: outro dia entrei num restaurante e entrou-me uma garrafa de vinho da Bairrada pelos olhos. Pedi e bebi-a. Disse-me o dono do estabelecimento que desde que a empresa pediu para ali colocar aquele mostruário aumentaram as vendas. Simples, não? É apenas um pequeno gesto individual dum produtor. Muito mais se pede aos produtores, em conjunto, duma região. Façam-se à vida e não lamentem a alegada sorte dos outros, que é fruto do seu trabalho.
Aliás, o queixume é até injusto para os produtores que individualmente têm sucesso nas regiões produtores menos favorecidas pelas escolhas do mercado. Só para citar alguns casos de qualidade , porque é impossível nomear todos: Luís Pato, Manuel dos Santos Campolargo, Quinta das Bágeiras, Quinta do Monte d'Oiro, Quinta da Lagoalva de Cima.
Num mundo global e quase instantâneo é notável como é que só algumas Comissões Vitivinícolas Regionais (CVR) têm páginas na internet. As páginas das CVR são pesadas, feias, má leitura, com introduções pesadas e escusadas. São poucas e há que há... Bem, a do Alentejo é claramente a melhor, embora a do Douro e Porto não seja nada má. É que saber vender não é apenas pôr o selo com o preço direitinho. Depois, ainda estranham!...

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

O fresco Bucelas

Portugal é um país quente. Esta afirmação redonda tem duas leituras: que o país se presta mais para a produção de tintos e que no Verão as gargantas pedem muito por brancos leves. O Vinho de Bucelas, que é sempre e somente branco, tem uma cor citrina, aroma e sabor fruta e acidez.
No centro-sul do país, a região de Bucelas contraria a probabilidade e faz nascer um dos mais notáveis brancos portugueses, facto a que não será alheia a relativa proximidade do mar. Na verdade, o oceano Atlântico não se avistará de Bucelas, mas chega lá pelo vento. A essência deste vinho está na frieza do Inverno e na amplitude térmica do Verão, garantem os entendidos.
Não me lembro quando bebi o meu primeiro Bucelas, sendo certo que em minha casa sempre se preferiram mais os tintos do que os brancos. Não me recordo, pois, se foi por lá que o traguei. Contudo, sei que não passo um ano sem eles. Mal as temperaturas sobem e torna-se uma necessidade nos folguedos, a par do Vinho Verde. Porém, enquanto nos néctares nortenhos tenho tido algumas desilusões, nos Bucelas ainda não tive dissabores de maior.
A demarcação de Bucelas aconteceu em 1907. Porém, a fama já existia. O cultivo da vinha remontará ao temo dos Romanos. Passada, a costumeira origem sobre os vinhedos portugueses, há nota de que o marquês de Pombal se terá interessado pelas vinhas de Bucelas e lá terá mandado plantar bacelos renanos. Outros, mais nacionalistas, garantem que terão sido vides portugueses a ir povoar campos germânicos ainda no tempo dos cruzados, quando estes escalavam a costa lisboeta no regresso da Terra Santa. No tempo de William Shakespeare era já exportado para Inglaterra, onde seria conhecido por «Charneco». Contudo, a fama maior e mais duradoura terá surgido com o desembarque das tropas britânicas que vieram bater-se contra os exércitos napoleónicos. Consta que o duque de Wellington o apreciava de tal modo que o terá levado de presente ao Rei Jorge III, ficando celebrizado por «Lisbon Hock» (Hock, termo que os britânicos atribuem a qualquer vinho branco do Reno) e tendo-se tornado habitual na corte. Eça de Queiroz terá sido também um seu apreciador e a ele se referiu em «A Relíquia».
O Vinho de Bucelas apenas pode ser branco, produzido a partir das castas arinto (75% do encepamento), esgana-cão e rabo-de-ovelha. A delimitação geográfica é a freguesia de Bucelas e parte das freguesias de Fanhões (Fanhões, Ribas de Cima, Ribas de Baixo, Barras e Cocho) e de Santo Antão do Tojal (Pintéus, Meijoeira e Arneiro), tudo lugares do concelho de Loures. Actualmente, além do vinho branco tranquilo podem fazer-se espumantes e colheita-tardias, duas inovações recentes e cuja ousadia foi de António João Paneiro Pinto da Quinta do Chão do Prado.
Para 2008 está marcada a abertura dum Museu do Vinho de Bucelas, a cargo da Câmara Municipal de Loures. Encontrei notícia de que irá custar dois milhões de euros, de que terá uma biblioteca e loja de vinhos, mas não onde irá situar-se. Paciência...
Felizmente a Área Metropolitana de Lisboa não é elástica e o concelho de Loures é grande o suficiente para ainda ter espaços rurais, pelo que ainda há espaço bastante para quintas, vinhas e bom vinho. Valha-nos isso!

Nota: Fotografia retirada do sítio da Quinta do Chão do Prado.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Esporão Private Selection Garrafeira 2003

Na famosa «noite dos Óscares» da Revista dos Vinhos provei um vinho que muito me contentou a noite e que anda na minha memória a alegrar-me os minutos. Trata-se do Esporão Private Selection Garrafeira de 2003, que tem notas de fruta e de lenha de azinho, muito envolvente e sensual... e um belo final!

Região: Alentejo
Produtor: Finagra
Teor alcoólico: 14,5%
Nota: 8/10

Vila Santa 1992

O vinho é um livro vivo. O que se bebe hoje é diferente do que poderia ter sido bebido há um ano e daquele idêntico guardado para daqui a uns anos. Quando só se tem uma garrafa apenas se conhece o vinho dum momento e não o vinho que nela vive, pois para isso seria preciso tê-lo bebido desde a sua infância e guardá-lo e bebê-lo a espaços até que se revelasse apenas senil, época em que se saberia ter passado para o outro mundo. Conhecer um vinho é tê-lo bebido muitas vezes e ter dele memórias.
Infelizmente, julgo não ter de nenhum vinho um vínculo que me permita ter essa perspectiva, mas uma garrafa que me trouxeram fez-me pensar: O que terá sido este vinho no ano em que saíu para a rua? Não arriscaria muito se apostasse como o terei bebido. Porém, à data não fazia apontamentos... infelicidades que agora lamento.
O que posso agora dizer deste vinho tinto? Que estava belíssimo, em boa forma e que bom prazer me deu. Muito elegante e macio.

Região: Regional Alentejano
Produtor: J. Portugal Ramos
Teor alcoólico: 13%
Nota: 6/10

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Parabéns Revista de Vinhos

A Revista de Vinhos faz 17 anos e só isso é já motivo de satisfação e de «parabenzação», porque são quase duas décadas a informar e formar os enófilos portugueses e a exigir qualidade junto dos produtores, através da crítica.
Mas há mais motivos de celebração: a festa de aniversário da publicação, que aconteceu na passada sexta-feira, 16 de Fevereiro, na Alfândega do Porto. O evento, também conhecido por «a noite dos Óscares», foi de animado convívio. Comeu-se muito bem (repasto a cargo do chefe Hélio Loureiro e serviço da Solinca) e bebeu-se em grande nível (vinhos escolhidos pela redacção da Revista de Vinhos).
Uma nota claramente positiva foi o convite feito pelos responsáveis da Revista de Vinhos aos seus concorrentes directos da Blue Wine e da Wine Passion. Só fica bem o cavalheirismo e uma saudável convivialidade.
Quanto aos vencedores... é comprar a Revista de Vinhos!

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Juras

Prometi-me que este ano iria beber menos referências vínicas e concentrar-me em vinhos que realmente gostasse. Isto porque muito do que se bebe acaba esquecido ou sem história. Porém, parece haver na minha natureza um impulso de curiosidade. Ai! Pareço um político, ao não cumprir as promessas...

terça-feira, fevereiro 13, 2007

domingo, fevereiro 11, 2007

Decider - sidra

Bem sei que Portugal não é um país onde haja tradição de sidra, mas colocarem produtos desinteressantes no mercado também era escusado. A sidra é uma bebida, uma espécie de vinho, que se faz a partir de maçãs e que é tradicional no Norte de Espanha e em França, além doutros locais da Europa. A bebida tem, obviamente, notas de maçã e uma certa acidez, pelo que resulta numa bebida bem fresca. A Decider, pelo contrário, só tem maçã, faltando-lhe a acidez. E falta-lhe a alma, aquilo que há nos vinhos e na comida, mas falta nos produtos meramente industriais. A Decider é muito adocicada para sidra, é chata, aborrecida e mortiça. O resultado é mais um refrigerante do que uma sidra. Um refrigerante alcoólico, já se vê. Agora porgunto-me porquê? Servirá apenas para preencher um nicho no segmento das chamadas soft-drinks com álcool, o que interessa vender, só isso e apenas isso. Não importa se o consumidor é incorrectamente induzido ou as expectativas ficam muito abaixo do esperado. Fizeram uma bebida à base de maçã e chamaram-lhe sidra, sem qualquer respeito pelas verdadeiras. Se fizessem à base de uvas ter-lhe-iam chamado vinho. Tecnicamente será sidra, mas quem procurar sidra dentro duma garrafa de Decider encontrará apenas refrigerante. Deveria haver respeito e pudor. Em Portugal continuamos sem poder beber sidra!

Produtor: Unicer
Teor alcoólico: 4,7%
Nota: 2/10

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Dar uma volta às DOC

NOTA: DEIXEI DE ME REVER NESTE TEXTO.

Uma denominação de origem controlada (DOC) deve servir para atribuir prestígio e estatuto. Não creio que exista alguém que diga o contrário. Parece-me consensual. Porém, uma sigla tão pequenina é potencialmente problemática.
Um dos problemas está no conteúdo da palavra qualidade. O que é a qualidade? Outro dos problemas é a tradição. Até onde se pode inovar? Um terceiro engulho é a área de influência. Até onde se pode ir? Depois há a questão da instituição em concreto das demarcações. Onde se situa a realidade e onde começa o sonho? Talvez haja mais situações de conflito, mas vou centrar-me nestes três pontos.
Primeiro, quero dizer que, para mim, faz todo o sentido a existência de DOC. Não penso é que faça sentido o número que existe em Portugal. Apagar algumas, por que não? Mesmo desagradando a algumas pessoas, talvez faça algum sentido.
O sucesso leva, muitas vezes, a invejas. O mais grave é que há invejosos que não têm pejo em pendurarem-se no trabalho, esforço, brio e mérito dos outros. Quando um produto, no caso vinho, ganhava fama surgia célere quem se dedicasse a falsificar ou a adulterar mercadoria, por forma a beneficiar também ou mais ainda.
Os mixordeiros eram (e talvez ainda sejam) muitas vezes oriúndos dos mesmos locais dos bons produtores, pelo que se associaram regras de práticas às exigências de proveniência nas normas das denominações. A mais antiga demarcação portuguesa (quiçá do mundo – os húngaros e os eslovacos teimam que não) data de 1756. O marquês de Pombal decretou que se pudesse punir com a pena de morte quem adicionasse bagas de sabugueiro ao vinho ou quem levasse vinho para dentro da demarcação.
Como não havia marcas, que só se foram solidificando e enlaçando fortemente ao vinho mais tarde, a preocupação era a de proteger as proveniências. O consumidor apreciava, por exemplo, os vinhos do Dão ou de Colares... não preferia ainda marcas, quanto muito tinha os seus comerciantes predilectos, onde se abastecia habitualmente. Note-se que a marca mais antiga de vinho de pasto portuguesa data de 1850 (Periquita) e que não há muitas mais marcas com identidade tão provecta. Mesmo o Pêra Manca referia-se primeiramente a uma denominação geográfica, antes de se transformar num nome comercial.
Num país sem marcas comerciais de vinho, onde a agricultura tinha um grande peso económico e, dentro desta, a viticultura era a rainha, houve a preocupação de proteger os bons lavradores. O país está tapado de DOC: ao todo temos 29. No entanto, dentro destas quase três dezenas há sub-regiões, cujos topónimos podem surgir nos rótulos, como, por exemplo, Monção, Valpaços, Portalegre e Évora.
Bem, das 29 DOC uma é de aguardente (Lourinhã), pelo que baixam para 28. O total sobe novamente um degrau, porque não estava contemplado o Douro, que apesar de ser coincidente com a do Vinho do Porto é outra denominação. Agora, se todas se começam a usar denominações de todas as sub-regiões chegaríamos ao bonito número de 55! (Note-se que há DOC em que as subregiões somam o total da área, caso do Alentejo, e noutros em que isso não acontece, como a dos Vinhos Verdes, pelo que este número não resulta do somatório de todas as sub-regiões). Bem, mas esse cenário não se põe. O número que vale é mesmo o 29.
O que me pergunto é se existem mesmo 29 DOC. Existem? Com todo o respeito que me mercecem os vitivinicultores dessas regiões, devo perguntar se faz sentido falar-se em DOC que só existem no papel. Será que faz sentido haver DOC e ter de explicar o que são? Não há muito dinheiro para a promoção do vinho português e ainda vai ter de se explicar que uma determinada proveniência existe?
A pergunta é retórica, mas cá vai: alguém bebe ou bebeu Vinho dos Biscoitos? Alguém bebe ou bebeu Vinho de Tavira? Alguém bebe ou bebeu Vinho das Encostas do Aire? Não quero com isto faltar ao respeito aos produtores dessas regiões. Não! Aliás, são apenas exemplos. Poderia citar a maioria das 29 denominações ilustradas no mapa anexo.
Não digo que o vinho dessas proveniências seja mau. Questiono-me apenas se valerá a pena existirem 29 DOC.
É claro que num lado do mercado estão os países do chamado novo mundo, onde tudo é feito em grande e, teoricamente, massificado. Do outro está um mundo rural de pequenas explorações e tradição, onde as coisas se fazem com uma outra atenção. Mas será que o vinho do velho mundo é melhor? Será que vale a pena explicar que existe vinho duma região se esse vinho não trouxer nada de extraordinário ao consumidor e/ou enófilo?
Dir-se-á que há vinhos que têm especificidades próprias tão únicas que justificam a existência duma DOC. Aceito o argumento. Porém não me parece que o justificativo sirva e se aplique a 29.
Quando se fala em qualidade até se arrepia a pele a muita gente e acabam sempre os antepassados a serem chamados à discussão. Dói sempre a honra a muita gente. Somos um povo de gente sensível e pouco dado a tolerar críticas. Ainda assim vou respingar.
Às vezes fico banzo com a qualidade de alguns vinhos. Se é suposto a inscrição dum topónimo indicar qualidade, por que é que há vinho mau certificado? Foi engano? Não creio! É corrupção? Não creio! Então o que é? Julgo que pela a dificuldade em dizer-se que não a um lavrador. Sempre se fez assim lá na terra, pelo que o vinhito está certo. Por outro lado, as entidades certificadoras vivem da venda dos selos de garantia. E há vinhos imbebíveis e intratáveis... e não duma região em concreto, mas de várias. Ou então é o meu padrão de exigência que está desajustado à realidade.
Porém, a noção de qualidade evolui. Volta e meia surgem notícias de desaguisados entre vitivinicultores sobre o rumo a dar ao vinho e à certificação. Há quem prefira a tradição, quem queira a inovação, quem escolha meios caminhos. Haverá sempre opiniões para tudo. Haverá em todas as rotas bom e mau vinho. Porém, quando se certifica há limitações que se impõem. Que liberdade se dá? Que liberdade se pode dar? Todas as opções têm reflexos no mercado. Por último, nesse domínio, a decisão é cruel: o mercado compra ou não? O consumidor valoriza ou paga pouco? Todas as decisões têm um custo.
Mas voltando ao vinho propriamente dito e ao termo denominação. Olho para o mapa das DOC e vejo o mapa da administração pública portuguesa num local. Continuo sem perceber por que é que o Alentejo é um, mas no vinho muda de nome. Explico melhor: percebo que existam os vinhos regionais Terras do Sado, não entendo é que a área se alargue pelos quatro concelhos alentejanos do distrito de Setúbal.
Não me venham com o argumento de que o «terroir» é diferente, porque nesse não caio. Claro que a península de Setúbal é diferente do Alentejo. Claro que o litoral é diferente do interior. Mas é claro que Alcácer do Sal, Grândola, Sines e Santiago do Cacém são diferentes de Palmela, Setúbal e Montijo. Sim, o litoral é diferente do interior. Pois é! Mas o litoral é uma faixa e a jurisdição da Península de Setúbal é larga. Por outro lado, Odemira é tão litoral e tão interior como qualquer um daqueles quatro concelhos setubalenses, mas parece-me que só não está na CVR da Península de Setúbal porque pertence ao distrito de Beja. Faz sentido? Por outro lado, não percebo como vinhas contíguas, com o mesmo solo, uma em Alcácer do Sal e outra em Ferreira do Alentejo dão uma um Regional Terras do Sado e outra um Regional Alentejano. São diferentes? Faça-se uma prova cega, um derby, e avalie-se. Eu aposto no empate, na igualdade.
Todavia, os quatro concelhos alentejanos do distrito de Setúbal (CVR Península de Setúbal) e os concelhos alentejanos circundantes só geram vinhos regionais. Pergunto-me porquê? Serão piores? Serão os vinhos das oito sub-regiões alentejanas superiores ou claramente distintas? Não me parece. Clara e definitivamente, não me parece mesmo nada.
Para baralhar mais as coisas pode afirmar-se que muitos vinhos regionais são melhores ou muito melhores ou muitíssimo melhores que congéneres que ostentam um topónimo no rótulo. Para baralhar mais, à semelhança do que aconteceu em Itália, parece haver em Portugal quem queira fazer vinhos de mesa de topo. E constou-me que vai surgir a Indicação Geográfica Portugal, o que se saúda.
Quando olho para o mapa com as 29 DOC vejo um país vitivinícola que já não existe e um outro que não faz sentido existir. Parece-me que as DOC precisam de levar uma volta. Grande.

Uma saúde por Setúbal

Ouvi dizer a gentes de Setúbal que seria bom que se ganhasse o hábito de chamar apenas o nome da cidade ao vinho e se deixasse cair o moscatel. A ideia é tornar comum pedir um Setúbal como quem pede um Porto. Tem alguma lógica, faz algum sentido. Não dou opinião, não é a minha guerra.
Contudo, noto duas coisas contraditórias: a existência de um hábito sonoro, quase musical, de dizer Moscatel de Setúbal e o facto de não existir uma só casta moscatel, mas várias, até em Portugal. Se pode ser desperdício comercial deixar perder a palavra moscatel, não é menos verdade que de uma família de uvas doces se fazem vários vinhos.
Para mim, que tenho do lado do meu pai umas gerações de lisboetas em cima, o moscatel é setubalense. O Moscatel do Douro só o conheci muito mais tarde. A minha memória afectiva e as recordações propriamente ditas estão com o generoso de a Sul do Tejo.
Notei já que há alguma rivalidade entre as gentes setubalenses (sentido peninsular) e as durienses quanto ao melhor moscatel. Diria que haverá bons e maus vinhos em toda a parte e que um bom moscatel dum local é sempre preferível a um medíocre moscatel do outro. Para não ser escorregadio confesso que, tendo em conta os que provei, o paladar encanta-se mais com os moscatéis do Sul.
Mas já que refiro uma hipotética disputa entre moscatéis tenho de notar que o de Setúbal e o do Douro são feitos com castas diferentes. O Moscatel do Douro faz-se com uvas da casta moscatel galego (moscatel de Frontigan), enquanto o Moscatel de Setúbal nasce de bagos das castas moscatel de Setúbal (moscatel de Alexandria - branca) e moscatel roxo (tinta). Todas estas castas conhecem diversas outras designações, o que prova a sua dispersão, embora a roxa seja tida como inteiramente portuguesa.
A vinha é uma cultura antiga na península Ibérica. Os romanos já faziam vinho por cá. Há registos medievais de produção vinícola em terras setubalenses e até referências a exportações para Inglaterra. Porém, duvido muito que os vinhos medievais tivessem alguma coisa a ver com os moscatéis actuais. Por um motivo: a aguardentação. Julgo saber que a técnica foi descoberta no tempo da expansão marítima e desenvolvida posteriormente ao notar-se que o vinho voltava melhor do que tinha partido. Ao certo não se sabe quando se começou a fazer o Moscatel de Setúbal tal como hoje o conhecemos.
Contudo, parece que em 1797 já era citado numa ementa da Ordem do Hospital de São João de Jerusalém (Ordem de Malta), classificado pelos monges-cavaleiros como sendo «o precioso Setúbal». De ciência certa é a data da instituição da demarcação da região, que aconteceu em 1907/8.
O Moscatel de Setúbal é mais um vinho fortificado português, ou seja que recebe uma adição de aguardente vínica. Tanto para o branco como para o tinto (roxo) há limites mínimos a cumprir. Segundo as normas do Instituto da Vinha e do Vinho, 67% dos encepamentos têm de ser das castas recomendadas. Contudo, a designação moscatel só é atribuída quando 85% do vinho é de uvas moscatel. Uf! É um tratado!
A obtenção da certificação implica ainda que as uvas sejam provenientes de vinhas situadas nos concelhos de Setúbal e Palmela, e em parte da freguesia do Castelo, no concelho de Sesimbra.
Felizmente, as mangas da metrópole lisboeta e as abas de Setúbal ainda não manjaram as terras necessárias ao moscatel. Segundo os dados que apurei, existem menos de 350 hectares vinha moscatel na península de Setúbal, das quais apenas 11 são de uvas tintas.
O Moscatel de Setúbal mais comum é o branco. O moscatel roxo encontrava-se praticamente extinto. No entanto, nos últimos anos várias casas da região investiram em novas vinhas desta casta. Por outro lado, assistiu-se por parte dos enófilos uma maior procura, guiada ora pela saudade ora pela curiosidade. Tanto um como outro são vinhos que sabem envelhecer.
O Moscatel de Setúbal (branco) é commumente descrito como tendo um paladar melado e citrinos. Já que se trata de um vinho destinado a digestivo ou a acompanhar sobremesas, deixo como sugestão alguns doces de tradição setubalense: tortas de azeitão, esses, queijinhos e amores.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O adeus do Bastardo

O Tejo é hoje quase só um rio. O meu pai, que nasceu em 1924, lembra-se de o ver cheio de vida, com fragatas e faluas, muita gente nos cais e golfinhos no estuário. Eu só me lembro de aprender nele as bandeiras que os navios traziam. Hoje são poucos os vasos, o porto está mortiço.
A cidade tornou-se metrópole e abraçou os arrabaldes. Os locais onde o meu pai ía de passeio são hoje subúrbios. Entre o tempo das hortas, olivais e vinhas até já houve um outro tempo, momento de fábricas e de operariado. Mas isso são contas que agora não importam.
No vai-e-vem desse Tejo de outrora abastecia-se a capital: o sal de Alcochete, os cereais do Alentejo, o azeite do Sul e, é claro, o vinho. Vinho? Sim, vinho. Não apenas o precioso e fino Moscatel de Setúbal, mas também o de pasto de Palmela. E não apenas esses.
Antes de ir onde quero, passo revista à actualidade: A denominação de origem controlada de Setúbal abrange os concelhos de Setúbal e de Palmela e parte da freguesia do Castelo, no concelho de Sesimbra. A demarcação de Palmela é quase coincidente, mas um pouco mais vasta, alargando-se ao concelho do Montijo. Depois há os vinhos regionais Terras do Sado, que abrangem todo o distrito de Setúbal (incluíndo os seus quatro concelhos alentejanos).
Porém, se é óbvio hoje o cultivo da vinha em Alcácer do Sal, por exemplo, não é lúcido afirmar-se que exista vinha em Almada ou no Barreiro, devido ao avanço da metrópole. Contudo, a vinha teve um peso significativo na actividade económica das povoações de Entre o Tejo e Sado. Um facto que se traduz pela presença de cachos nos brasões dos concelhos de Alcochete, do Barreiro e da Moita, e nos das freguesias de Caparica (Almada), Charneca da Caparica (Almada), Lavradio (Barreiro), Santo António da Charneca (Barreiro), Pegões (Montijo), Santo Isidro de Pegões (Montijo) e Paio Pires (Seixal). Além destes ainda há o de Samouco (Alcochete) que tem uma pipa.
No entanto, o reconhecimento da qualidade dos vinhos da margem esquerda do Tejo tardou a acontecer. A menos que se considere madrugadora o estabelecimento da demarcação do Setúbal que aconteceu em 1907. Já a denominação Palmela só se verificou em 1997. Ainda assim, Lisboa bebeu muito vinho proveniente da outra banda do rio. Um deles tinha uma fama particular: o Bastardinho.
Este vinho era proveniente de uma área vitícola que se estendia de Alcochete até ao Barreiro, sendo communente designado por vinho do Lavradio; outras fontes referem-no como típico em toda a península de Setúbal. Este vinho era proveniente, porque ao que consta dele já só resta o que a firma José Maria da Fonseca dispõe em Azeitão. A empresa refere que a última vinha foi arrancada (até me dói escrever isto) em 1983.
Contudo, constou-me que um indivíduo se dedica todos os anos a bater de porta em porta dos quintais a recolher as poucas uvas que ainda ousam nascer na orla ribeirinha do Tejo e faz o que lhe compete de vinho. Quem será esta personagem?
Tanto quanto sei, a empresa José Maria da Fonseca além da reserva em barril, que volta e meia engarrafa umas dúzias de frasquinhos, tem tenções de plantar uns tantos pés desta cepa. Porém, a «coisa» levará 30 anos, para dar vinho. Um suplício, portanto.
É um vinho ao qual é adicionada aguardente vínica e que estagia em barricas usadas. As descrições coincidem nos frutos secos e figos, havendo ainda referências a especiarias e menta. Eu, confesso, que nunca o provei. Sei onde se vende e um dia ainda perco a cabeça e o amor a uns tantos euros.

Nota: O brasão do Lavradio demonstra a importância da vinha na economia da Terra. O Bastardinho era também conhecido por Vinho do Lavradio.

(Esperança no) Vinho de Colares

O Vinho de Colares está-me na memória. Não que o tenha bebido muito, mas porque foi dos primeiros que me deixaram beber, dos primeiros a impressionar-me e dos que mais me impressionaram.
É um facto que a juventude é impressionável, mas não fui o primeiro a fascinar-me com o Vinho de Colares nem o único. Antes de mim e a par, outras pessoas têm um fascínio e uma nostalgia. A fama e a grandiosidade levaram a que o importante professor Ferreira Lapa, referência ainda hoje no campo da vitivinicultura, a afirmar: «é um vinho que possui todos os requisitos e qualidades dos vinhos tintos de Medoc, é o vinho mais francês que possuímos». Eça de Queiroz foi outro apreciador destes néctares. Contudo, vivo quase no tempo errado para o beber. Quase, porque há ainda disponível no mercado umas tantas garrafas de anos apontados como anteriores à decadência da região. Quase, porque julgo haver motivos de esperança.
A gloria de Colares sempre foi o tinto, muito mais do que o branco. A dor que causa e se sente é a escassez da casta ramisco, visto que a geradora do branco (malvasia de Colares) não ser a mais louvada. A decadência da vinha em Colares liga-se à proximidade de Lisboa, ao aumento de importância económica do turismo, com incremento das casas de campo, das vivendas burguesas e das residênciais de Verão.
A Lisboa elegante e burguesa do século XIX já gostava de ir a banhos para a praia e refrescar-se na aragem da serra de Sintra. A moda da praia das Maçãs levou à construção de uma linha de carro-eléctrico, as casas de fim-de-semana foram somando-se. A beleza da rusticidade saloia, os bons ares da floresta e da serrania e os banhos de mares aumentaram os aglomerados urbanos de Colares, das Azenhas do Mar e das pequenas aldeias limítrofes. Hoje, as antigas hortas, pomares e vinhas nos areais vão rareando e algumas propriedades estão abandonadas ou desmazeladas.
Há duzentos anos era tudo muito diferente. O século XIX foi o tempo do Vinho de Colares e por diversas razões: uma delas foi a filoxera, outra a da moda e o reconhecimento da qualidade. A praga do pulgão que chegou a Portugal em 1864/5 e dizimou as vinhas europeias não fez estragos em Colares, antes pelo contrário. O facto de as vinhas estarem plantadas em solos arenosos evitou o ataque do insecto. Por outro lado, a escassez de vinho permitiu a valorização dos preços dos lavradores que o tinham e abriu espaço para que estes vinhos ganhassem fama. É nessa centúria que é criada, por Gomes da Silva, uma das mais emblemáticas casas: que viria a chamar-se de Viúva Gomes & Filhos, fundada em 1808.
O oceâno Atlântico faz-se sentir grandemente na demarcação de Colares, através dos fortes ventos marítimos portadores de salinidade. As parcelas de terreno são de pequena dimensão e encontram-se muitas vezes cultivadas com vinhas e macieiras rasteiras, assim plantadas para melhor enfrentarem a ventania. Para protecção adicional são colocadas paliçadas de cana.
Pelo facto das plantas estarem na sua maioria em solo arenoso e terem ficado imunes à filoxera ainda hoje as cepas se encontram em chamado pé-franco, ou seja não estão enxertadas em vides americanas, resistentes ao pulgão.
Nos tempos áureos do século XIX, a área circundante à vila de Colares plantada com vinha pode ter chegado aos mil hectares. A região demarcada de hoje representa 22 hectares, dos quais nem todos estão explorados. Refira-se que aqui existem vários conceitos: área de vinha próxima à vila, demarcação e área de chão de areia. Todavia, de mil para 22 hectares há uma brutal diferença.
Para se ver o estado a que se chegou refiram-se outros números. Tanto quanto sei, actualmente há apenas dois produtores de Vinho de Colares. A jovem Sociedade das Vinhas de Areia e a veterana Adega Regional de Colares, que conta com cerca de meia centena de associados e vende uma boa parte da sua safra a duas empresas engarrafadoras (Viúva Gomes & Filhos e António Bernardino Paulo da Silva).
Num país que se diz titular da mais antiga demarcação do mundo (Douro), esta não é muito idosa, embora seja das que mais cedo foi reconhecida. No entanto, não tem um século. A região só foi demarcada em 1908 por decreto de Dom Manuel II e abrange as freguesias de Colares, São João das Lampas e São Martinho (todas no concelho de Sintra).
A região de Colares divide-se em duas subzonas geológicas: uma arenosa e outra argilo-calcária (chão rijo). Porém, apenas os vinhos provenientes maioritariamente de solo arenoso podem ostentar a denominação de Colares.
O Vinho de Colares tanto pode ser tinto como branco, sendo que o primeiro tem de conter uma percentagem mínima de 80 por cento da casta ramisco e o segundo pelo menos 80 por cento da casta malvasia. Tanto o tinto como o branco pode conter até 10 por cento de vinho proveniente de parcelas de chão rijo. No chão de areia podem ainda ser cultivadas as castas tintas castelão, molar e parreira matias, e as brancas arinto, galego dourado e jampal. Nestas áreas argilo-calcárias é permitido o cultivo das castas tintas castelão, molar, parreira matias e tinta-miúda, e as brancas arinto, galego dourado, fernão pires, jampal e vital. O Colares tinto está sujeito a um estágio mínimo obrigatório de 18 meses em madeira e de três meses em garrafa. O branco tem de estagiar seis meses em madeira e três meses em garrafa. Como é típico dos vinhos do litoral, o Vinho de Colares não é muito alcoólico, tendo por graduação mínima obrigatória 10 graus.
O registo mais antigo sobre o cultivo da vinha na área de Colares data de 1154 e consta da Carta de Foral de Sintra. Nova referência surge em 1255 na doação feita por Dom Afonso III do reguengo de Colares a Pedro Miguel e sua mulher Maria Estêvão. Até ao século XVIII as fontes são omissas em relação às castas plantadas na actual demarcação. É a partir dessa centúria que começam os relatos sobre o ramisco. Contudo, se não há documentação que ateste a presença desta uva tinta em período anterior, também não há que a desminta.
O reconhecimento, por parte da Unesco, de Sintra como Património da Humanidade, em 1995, veio dar um novo alento ao Vinho de Colares. Em 1999, a Fundação Oriente, presidida por Carlos Monjardino, adquiriu nove hectares na demarcação de Colares, que transferiu para uma empresa criada para o efeito (Sociedade das Vinhas da Areia), que comprou a marca tradicional MJC.
A empresa iniciou uma reconversão da vinha, já existente no local e que se destinava ao fabrico de aguardente. Um dos problemas foi a obtenção de bacelos de ramisco, que, devido à sua raridade, levou cerca de três anos até à satisfação das necessidades.
O surgimento desta empresa trouxe ainda inovação à região. Tradicionalmente, as cepas, mesmo as situadas no chão de areia, têm as raízes fincadas na camada argilosa. Porém, a parcela de terreno onde se situa a vinha desta empresa conta com uma profunda duna, pelo que, pela primeira vez, foi introduzida a rega em Colares. Por outro lado, a maior distância face ao mar levou a que as plantas não sejam conduzidas de forma rasteira, mas de forma mais ergonómica e de exploração mais económica. Por este facto, as folhas podem apanhar mais Sol, aumentando o teor alcoólico e arredondando os taninos. Os taninos mais redondos permitem que o MJC seja bebido com menos idade do que os seus congéneres. O trabalho de campo ficou a cargo de João Goulão e o enológico de Paolo Nigra.
O surgimento desta empresa, que ocupa uma área considerável da demarcação, vem dar uma forte esperança, até porque não hesitou em «desperdiçar» algumas safras por não as considerar dignas da qualidade exigível ao Vinho de Colares. Esta postura de exigência, aliada ao facto de a detentora do capital ser a Fundação Oriente, vocacionada para investimentos culturais, faz dar um suspiro aliviado. Porém, será injusto não referir também o esforço paralelo que a Adega Regional de Colares tem realizado para recuperar a fama e o estatuto deste vinho, nomeadamente a selecção de clones dos melhores bacelos e a melhoria dos modos de produção. Espero que estes meus dois suspiros tenham razões de ser e o Vinho de Colares possa recuperar da sombra.
Consta como certo que a gastronomia duma região deve ser acompanhada pelos vinhos da mesma proveniência. Se assim é, o oposto deve também ser verdadeiro. É claro que, sendo o Vinho de Colares famoso e batido as rotas comerciais, haverá muitas iguarias com que casará bem, mas quero apenas agora alguns da tradição saloia. Numa pesquisa rápida encontrei para o tinto: carne de porco à Mercês, leitão de Negrais, vitela à sintrense e cabrito assado à padeiro. Na investigação para o branco: caldeirada de abrótea e caboz, migas à pescador, escalada de lapas, mexilhões na chapa e mexilhões de cebolada. A doçaria de Sintra tem fama na região de Lisboa, mas não me parece que vá bem com nenhum dos Colares.
Eça de Queiroz foi repetente nas referências ao Vinho de Colares na sua obra, o que permite deduzir que o escritor era um aficionado. E a propósito de pratos que apetece ligar com o Vinho de Colares junto o meu paladar ao de Eça de Queiroz, pelo menos a confiar na descrição que Jaime Batalha Reis faz dos repastos que partilhou com ele: bacalhau e bifes, pois vão muito bem com o dito tinto.
Quando novo, o tinto é taninoso e adstringente, o que alegadamente terá levado Eça de Queiroz uma tirada mordaz: «Este vinho é Colares novo ou está estragado». O passar dos anos confere-lhe um aroma agradável e um toque aveludado na boca. O meu último tinto era de 1974 e o derradeiro branco de 1994.

Nota: Fotografia duma vindima em Colares, retirada do sítio de Luciano Canelas.